
13º Concurso Literário do Servidor Público do Estado do Rio de Janeiro - poesia e conto
JOSÉ ALVES FILHO
Professor - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro - RJ
Bolas! Ora bolas!
A estação é o outono e a hora é a que se aproxima dos derradeiros minutos que antecedem a chegada do crepúsculo. O início do último quarto do dia, a noite.
O sol, que rolara intensamente no azul do céu durante o segundo e terceiro quartos do dia, era, agora, somente uma enorme e linda bola alaranjada com uma cor incomparável a esta feia que anda desfilando por nossos gramados. Embora já sem o seu brilho inicial, pois se sentia triste por ter que abandonar o calor da torcida da cidade do Rio de Janeiro, ele saía, passando rente aos morros, em direção a linha de fundo. Abandonava o mais belo estádio do hemisfério sul quase aos quarenta e cinco minutos finais da tarde.
O feixe de luz de um refletor natural, guiado pelas mãos invisíveis de um hábil e experimentado iluminador, realçava a cena. Um solitário e relutante raio de sol, com o brilho opaco de uma luz mortiça, emprestava um ar nostálgico a um minúsculo trecho do centro da grande Cidade. Havia algo de mágico pairando naquele cenário, pois somente aquele cantinho era agraciado milagrosamente pelo facho de luz solar.
O palco é a esquina das ruas Buenos Aires e Regente Feijó, onde, restauradas com habilidade e maestria por seu Domingos das Bolas, saudosas bolas de futebol, conversam alegremente, enquanto esperavam por seus condutores.
Paciente e meticuloso, seu Domingos passa os dias entre os mais diversos tipos de bolas, a quem chama carinhosamente de minhas fofas, realizando o seu mister, dando uma bola e ganhando um qualquer, para gáudio das bolas, que ali aparecem, e alegria da patroa e da gurizada em casa.
As bolas, algumas bem conservadas e outras bem desgastadas pelos confrontos que animaram, mas todas ainda dando muito bem no couro quando solicitadas, graças ao esmero de seu Domingos, contavam com graças, num papo redondo, suas experiências nas pelejas da vida.
Hoje, talvez devido à pequena afluência ou ao primeiro contato entre elas, não havia a algazarra tão costumeira que rolava entre as bolas. Todas aguardavam educada e pacientemente a sua vez de contar seus casos.
Sob o esplendor da luz da ribalta do improvisado palco, com um texto muito bem ensaiado, Madame Semitri contava, vaidosa e com um indisfarçável ar de superioridade, o segredo da sua boa forma, ainda bem redondinha como os boleiros gostam. Ela era a mais velha entre as presentes, mas aparentava ser a mais nova apesar da passagem do tempo. Remexia-se, com efeito, para exibir o corpo, quase todo ele tatuado com os autógrafos dos campeões da Copa de 70, orgulhosa da sua bela silhueta.
— Eu fui, minhas caras e queridas amigas, em toda a minha existência, bola de um jogo só! Jamais rolei em outro gramado. Mas o único e grande jogo da minha vida não foi um jogo qualquer, não! Sou protagonista da semifinal da copa do mundo de 1970, jogo em que o Brasil venceu o Uruguai por 3x1 dando um passo rumo ao seu tricampeonato mundial! Foi o jogo em que o fantasma da copa de 1950, que, desde então assombrava a muitos brasileiros, foi definitivamente espantado! Vocês ainda nem sonhavam em ser manufaturadas e eu já estava desfilando e brilhando no gramado! Naquela memorável partida eu tive a glória de ir parar nas redes e celebrar o mágico momento do futebol quatro vezes, mas no cômputo final, não me realizei como gostaria, as frustrações empanaram um tanto o brilho por mim cobiçado.
Com um ar nostálgico fez uma pausa e suspirou fundo, deixando escapar um pouquinho de ar pela válvula, para avaliar o suspense e o impacto que a sua narrativa causava a platéia de ouvintes. Observou em torno e percebeu que todas as bolas a olhavam atentamente, sem piscar, com muita atenção e admiração. Sentiu-se a verdadeira dona do jogo e, mais uma vez, exibindo o seu ar de superioridade, continuou a representar o seu papel no espetáculo:
— Não tive a competência de agraciar o Pelé, rei do futebol, com um gol, embora tenha me esforçado muito para fazê-lo. No ímpeto de ajudá-lo a converter um gol, como se ele precisasse disto, né! Interferi na complementação de algumas jogadas brilhantemente executadas, impedindo que elas se finalizassem de acordo com a malícia e a perícia, por ele, articuladas. Se as deixassem seguir naturalmente as suas trajetórias, sem a presunção de melhorá-las, talvez não estivesse aqui me lamentando. Mas graças ao meu bom Deus tudo isto já são lances superados, entretanto foi necessário um longo período de análise para amenizar o trauma de não ter nos dado à satisfação pretendida.
Madame Semitri, ciente de que monopolizava a fala, deu uma olhada de relance e fez uma rápida pausa com receio de perder a vez da palavra. Porém foi o suficiente para encontrar em meio aos redondos semblantes um olhar de enfado.
— Não sei se estou sendo clara, mas vou elucidar umas passagens para animar o papo e os fatos. Em duas lindas e maravilhosas jogadas, por exemplo, fui vaiada por quase todo o estádio de Jalisco graças a pequenos, mas decisivos detalhes. Aliás, jogadas tão inesquecíveis que tem gente que já apagou o jogo da memória, mas mantêm vivo os registros delas. No primeiro lance o Pelé me emendou de primeira e de bate pronto, lá do meio de campo, rebatendo um tiro de meta cobrado pelo goleiro adversário, que lhe caiu à feição. Graças a mim o goleiro me agarrou. Eu calculei mal a trajetória na volta e, alterando os planos dele, não consegui dar a impulsão que eu pretendia para encobrir o goleiro quando bati no chão, daí ele me alcançou e segurou. Na segunda jogada ele enganou a nós três: eu, o goleiro, o beque e acho que, também, a todo mundo que assistia ao jogo. Dando um corta luz ele fingiu que ia me pegar, mas me deixou seguir e deu a volta no goleiro, como no drible da vaca, mas fazendo ele a trajetória como se fosse uma de nós. Com o goleiro, que pensou que ele tinha me conduzido, e o beque voltando desesperados para impedir o gol, ele me chutou tirando mais do beque. A verdade é que fiquei com medo de me chocar contra a trave aí tendenciosamente me inclinei para a esquerda e sai pela linha de fundo. Até hoje eu ainda costumo sonhar muito com estes lances, mas só que convertidos em gol.
Benê, notadamente a mais nova da turma, que escutara a todo o relato, mais atenta do que todas ali presentes, dando um tom de consolo a uma voz lamentosa, refutou:
— Madame a senhora não sabe o que é fracasso. Imagine só: uma aprazível tarde de domingo, o estádio Mário Filho, maior estádio de futebol do planeta, lotado pelas duas maiores torcidas do Rio e dia de decisão do campeonato carioca.
Neste momento ela fez uma breve pausa e elevou o olhar rapidamente na direção da madame Semitri, para medir o efeito que suas palavras provocara nela. Depois fez um contato visual com cada uma das outras.
Madame permanecia garbosa e majestosa, era a única colocada em uma pequena cadeira de espaldar alto, parecia uma rainha olhando a todas suas súditas de um plano mais alto, mas prestava atenção sem esboçar, no austero semblante, reação de natureza alguma. As outras duas companheiras retribuíram com animadores olhares de incentivo. Benê, então prosseguiu animada:
— Eu, de braço dado com o juiz, entro garbosa em campo para a minha avant premier. O juiz, a autoridade máxima em campo, examinando se tudo transcorria de acordo com o protocolo, me segura o tempo todo, demonstrando quem seria a bola do jogo. Tudo pronto para o início da peleja e começa o meu drama. O árbitro me segura com as duas mãos e me aperta, eu toda prosa, rio de prazer, mas ele faz uns trejeitos de quem não parece nada satisfeito e eu fico apreensiva. Com ar de indecisão ele me entrega ao primeiro auxiliar, que também me aperta, e me passa ao segundo auxiliar e este, depois, aos capitães de Vasco e Flamengo. Passei de mão em mão, entre alguns daqueles que nos usam e tratam com fino trato, e ninguém pareceu gostar da minha forma e sou desprezada. Sentindo-me completamente vazia por dentro, retornei murcha para o vestiário consolada por um amável gandula, que se desdobrou pacientemente tentando reanimar-me e colocar-me mais uma vez em condição de jogo, mas o desalento já havia me tomado em seus braços. Vivi um triste e longo período de abandono e esquecimento, jogada num depósito por falta de especialistas para cuidar de mim. Um dia apareceu, por lá, um político pedindo uma bola oficial para um jogo beneficente, que organizara com fins eleitoreiro, e foi a minha redenção. Como o solicitante gozava de pouco ou nenhum prestígio político junto ao superintendente este não só não negou o pedido como o atendeu prontamente. Entretanto para demonstrar e deixar bem evidente a forma do seu apreço eu, uma bola imprestável, fui cedida. Este gesto mais tarde lhe custou muito caro, mas isto é papo para uma outra vez. O candidato não promissor, na avaliação do superintendente, percebeu e se enterneceu com o meu problema e me trouxe, com urgência, para ser examinada pelo seu Domingos; diagnóstico: um defeito congênito na válvula que me causava uma lenta e contínua perda de ar. Seu Domingos restaurou a minha válvula e desde então eu participo, com destaque, do início de todas as partidas que ele organiza. Passei a ser o seu amuleto, o símbolo de todas as suas campanhas. Nova, mas restaurada, já não sinto esperanças e nem tenho mais a pretensão de desfilar nos grandes estádios sob tratos de profissionais do esporte. No entanto estou sendo preparada para brilhar numa pelada lá na Granja do Torto!
— Tudo é possível minha amiga, não esqueça que todos dizem que o mundo é como a gente: pequeno e redondo! Estaremos torcendo por você e lembre de nós quando lá estiver! — disse, euforicamente, Talismã iniciando seu relato.
— Eu também nunca rolei fora do sítio do Chico, mas me envaideço com isto, embora não conheça outro estádio. Viajei com ele todas às vezes que ele foi para o exterior esperançosos de desfilarmos por algum estádio ou mesmo em um campinho de várzea, mas isto nunca foi possível. No entanto, durante muitos anos, todas as segundas e quintas, eu entrei em jogo e fui às redes milhares de vezes. Artistas de todos os quilates, inclusive do futebol me tocaram. Durante o meu período de reinado absoluto, o Politeama, time do Chico, ficou invicto por muito tempo, sabem por quê? Porque nós éramos cúmplices e tínhamos um trato: eu só visitava os fundos das redes do time dele, quando ia! Um número de vezes menor do que a do adversário. Cansei de dar em cima do goleiro dele, às vezes ele não chegava junto e nem me pegava, aí eu batia com raiva na trave ou, então, saía fula da vida pela linha de fundo. Frustração eu não tenho, muito pelo contrário! Mas, no meu íntimo, carrego uma pequena mágoa. O Chico, apaixonado que é por uma bola, nunca fez uma música para nós!
Finalizou Talismã acrescentando uma forte dose de dramatização a última frase.
— Que Chico é este, que você se infla de tanto orgulho quando fala dele? — questionou madame Semitri, esforçando-se para esconder uma ponta de despeito, mas revelando todo conteúdo de inveja por tamanha veneração.
— Chico Buarque de Holanda! — disse Talismã, enfatizando cada sílaba do nome, sem conseguir disfarçar a ansiedade com que aguardava para responder a tão esperada pergunta.
Benê, uma inveterada sonhadora, que adora analisar tudo sob a óptica dos contos de fada, curiosa de como se originou o relacionamento, perguntou:
— Quando vocês se viram pela primeira vez?
Talismã, agora centro de todas as atenções, deixou escapar um riso matreiro, enquanto enxugava o suor que brotava das suas costuras.
— Bem! Foi amor à primeira vista. Estávamos todas em exposição na vitrine da loja quando alguém gritou: Vejam é o Chico Buarque! — Todas rolamos para a vidraça. Ele, que já estava alguns passos adiante da vitrine, deve ter percebido a movimentação e virou a cabeça curioso. Todas voltaram para seus lugares, assim que ele deu meia volta, menos eu, que fiquei paralisada encarando-o admirada. Ele entrou na loja e voltou com o vendedor e apontou para mim dizendo: Eu quero esta!
Todas, com exceção de madame Semitri, exibiam um semblante de admiração e adoração. Para não perder a sua majestade na rodinha, madame Semitri exibida retomou a palavra:
— O meu dono é ex-dirigente da CBD, agora CBF. Naquele dia, quando o jogo se aproximava do final, ele decidiu que eu seria dele de qualquer maneira, logo assim que a partida encerrasse. Após o apito de final de jogo, com uma amiga, também oficial da copa, na mão, escorou o árbitro do jogo na entrada do vestiário. Em meio à confusão de repórteres, jornalistas e curiosos, fez a troca. Ele se posicionou atrás do árbitro com a minha amiga nas mãos, alguém orientado por ele me puxou dos braços do juiz, que ao se virar se deparou com ele de braço dado com a minha amiga, achando que era eu. O árbitro, rápido e fulo da vida, tomou a minha amiga das mãos dele, pensando estar recuperando-me. Meu dono, então, armou um pequeno barraco com o árbitro para dar um ar de tragédia a comédia e, se esforçando para conter o riso, foi embora de mãos vazias e de orgulho cheio. Hoje em dia, eu só saio de casa para exposições e festas, uma vez ou outra apareço aqui no seu Domingos para fazer alguns retoques.
— Que por sinal fez maravilhas com a minha válvula, pois nunca mais o ar da câmara escapou inadvertidamente. — falou Benê em tom de agradecimento.
Feia de cara, mas boa de jogo, um pouco afastada do grupo, Raimunda: rota, remendada, maltrapilha e envergonhada ouvia a tudo como uma coruja, não dizia nada, mas prestava uma atenção! Benê percebeu nela o desejo de também relatar as suas experiências. Empurrou-a para o centro do grupo e ela se deixou rolar.
— Eu comecei em São Januário, onde fui bem tratada por muitos e maltratada por poucos. Trago nestes descascados e costurados gomos boas lembranças de craques como Romário, Geovani, Ernâne e outros, além de uma verdadeira adoração por Roberto Dinamite. Mas um dia, por problemas políticos internos e ciúmes pela felicidade expressada por uma possível volta de Roberto Dinamite, fui doada para uma Penitenciária. Era bola para todo jogo: campeonatos internos, amistosos e peladas de funcionários. Alguns me tratavam sem nada dever aos profissionais de futebol, mas a maioria era braba mesmo. Para agravar o meu sofrimento o campo lá na Penitenciária não tem grama, é de barro, e eu rezo para chover, assim não sofro tanto com a aspereza do solo. De vez em quando, um funcionário me leva para jogar fora, o campo é maravilhoso: grama importada, marcação com talco e traves emborrachadas, mas a maior parte do pessoal é de dar dó, nada deixando a desejar aos piores lá da Penitenciária. Lá, somos poucas e eu quase não tenho descanso, nossas estórias são parecidas, por isso adoro quando venho ao seu Domingos. Na última vez que estive aqui não havia somente companheiras de futebol de campo, encontrei algumas de salão e uma de beach-soccer, conversamos muito sobre o futebol e chegamos à conclusão de que deveríamos fundar um Sindicato. Eu já soube de jogos de futebol: sem trave, sem torcida e sem rede, mas de nenhum jogo de futebol sem bola. A terra é redonda! O sol é redondo! A lua e redonda! Ora bolas! Afinal, quem é a rainha do espetáculo?
A lua, que aguardara pacientemente a sua hora de substituir o sol, já adentrara o cenário, há algumas horas cheia e brilhante como uma bola. Embora o sol se esforce para fazê-la brilhar, tanto quanto ele, o seu brilho é frio e uniforme e talvez por isto o cantinho de seu Domingos das Bolas, agora vazio, tenha um aspecto nostálgico e sombrio, como a maior parte do centro da Cidade.
A estação é o outono e a hora é a que se aproxima dos derradeiros minutos que antecedem a chegada do crepúsculo. O início do último quarto do dia, a noite.
O sol, que rolara intensamente no azul do céu durante o segundo e terceiro quartos do dia, era, agora, somente uma enorme e linda bola alaranjada com uma cor incomparável a esta feia que anda desfilando por nossos gramados. Embora já sem o seu brilho inicial, pois se sentia triste por ter que abandonar o calor da torcida da cidade do Rio de Janeiro, ele saía, passando rente aos morros, em direção a linha de fundo. Abandonava o mais belo estádio do hemisfério sul quase aos quarenta e cinco minutos finais da tarde.
O feixe de luz de um refletor natural, guiado pelas mãos invisíveis de um hábil e experimentado iluminador, realçava a cena. Um solitário e relutante raio de sol, com o brilho opaco de uma luz mortiça, emprestava um ar nostálgico a um minúsculo trecho do centro da grande Cidade. Havia algo de mágico pairando naquele cenário, pois somente aquele cantinho era agraciado milagrosamente pelo facho de luz solar.
O palco é a esquina das ruas Buenos Aires e Regente Feijó, onde, restauradas com habilidade e maestria por seu Domingos das Bolas, saudosas bolas de futebol, conversam alegremente, enquanto esperavam por seus condutores.
Paciente e meticuloso, seu Domingos passa os dias entre os mais diversos tipos de bolas, a quem chama carinhosamente de minhas fofas, realizando o seu mister, dando uma bola e ganhando um qualquer, para gáudio das bolas, que ali aparecem, e alegria da patroa e da gurizada em casa.
As bolas, algumas bem conservadas e outras bem desgastadas pelos confrontos que animaram, mas todas ainda dando muito bem no couro quando solicitadas, graças ao esmero de seu Domingos, contavam com graças, num papo redondo, suas experiências nas pelejas da vida.
Hoje, talvez devido à pequena afluência ou ao primeiro contato entre elas, não havia a algazarra tão costumeira que rolava entre as bolas. Todas aguardavam educada e pacientemente a sua vez de contar seus casos.
Sob o esplendor da luz da ribalta do improvisado palco, com um texto muito bem ensaiado, Madame Semitri contava, vaidosa e com um indisfarçável ar de superioridade, o segredo da sua boa forma, ainda bem redondinha como os boleiros gostam. Ela era a mais velha entre as presentes, mas aparentava ser a mais nova apesar da passagem do tempo. Remexia-se, com efeito, para exibir o corpo, quase todo ele tatuado com os autógrafos dos campeões da Copa de 70, orgulhosa da sua bela silhueta.
— Eu fui, minhas caras e queridas amigas, em toda a minha existência, bola de um jogo só! Jamais rolei em outro gramado. Mas o único e grande jogo da minha vida não foi um jogo qualquer, não! Sou protagonista da semifinal da copa do mundo de 1970, jogo em que o Brasil venceu o Uruguai por 3x1 dando um passo rumo ao seu tricampeonato mundial! Foi o jogo em que o fantasma da copa de 1950, que, desde então assombrava a muitos brasileiros, foi definitivamente espantado! Vocês ainda nem sonhavam em ser manufaturadas e eu já estava desfilando e brilhando no gramado! Naquela memorável partida eu tive a glória de ir parar nas redes e celebrar o mágico momento do futebol quatro vezes, mas no cômputo final, não me realizei como gostaria, as frustrações empanaram um tanto o brilho por mim cobiçado.
Com um ar nostálgico fez uma pausa e suspirou fundo, deixando escapar um pouquinho de ar pela válvula, para avaliar o suspense e o impacto que a sua narrativa causava a platéia de ouvintes. Observou em torno e percebeu que todas as bolas a olhavam atentamente, sem piscar, com muita atenção e admiração. Sentiu-se a verdadeira dona do jogo e, mais uma vez, exibindo o seu ar de superioridade, continuou a representar o seu papel no espetáculo:
— Não tive a competência de agraciar o Pelé, rei do futebol, com um gol, embora tenha me esforçado muito para fazê-lo. No ímpeto de ajudá-lo a converter um gol, como se ele precisasse disto, né! Interferi na complementação de algumas jogadas brilhantemente executadas, impedindo que elas se finalizassem de acordo com a malícia e a perícia, por ele, articuladas. Se as deixassem seguir naturalmente as suas trajetórias, sem a presunção de melhorá-las, talvez não estivesse aqui me lamentando. Mas graças ao meu bom Deus tudo isto já são lances superados, entretanto foi necessário um longo período de análise para amenizar o trauma de não ter nos dado à satisfação pretendida.
Madame Semitri, ciente de que monopolizava a fala, deu uma olhada de relance e fez uma rápida pausa com receio de perder a vez da palavra. Porém foi o suficiente para encontrar em meio aos redondos semblantes um olhar de enfado.
— Não sei se estou sendo clara, mas vou elucidar umas passagens para animar o papo e os fatos. Em duas lindas e maravilhosas jogadas, por exemplo, fui vaiada por quase todo o estádio de Jalisco graças a pequenos, mas decisivos detalhes. Aliás, jogadas tão inesquecíveis que tem gente que já apagou o jogo da memória, mas mantêm vivo os registros delas. No primeiro lance o Pelé me emendou de primeira e de bate pronto, lá do meio de campo, rebatendo um tiro de meta cobrado pelo goleiro adversário, que lhe caiu à feição. Graças a mim o goleiro me agarrou. Eu calculei mal a trajetória na volta e, alterando os planos dele, não consegui dar a impulsão que eu pretendia para encobrir o goleiro quando bati no chão, daí ele me alcançou e segurou. Na segunda jogada ele enganou a nós três: eu, o goleiro, o beque e acho que, também, a todo mundo que assistia ao jogo. Dando um corta luz ele fingiu que ia me pegar, mas me deixou seguir e deu a volta no goleiro, como no drible da vaca, mas fazendo ele a trajetória como se fosse uma de nós. Com o goleiro, que pensou que ele tinha me conduzido, e o beque voltando desesperados para impedir o gol, ele me chutou tirando mais do beque. A verdade é que fiquei com medo de me chocar contra a trave aí tendenciosamente me inclinei para a esquerda e sai pela linha de fundo. Até hoje eu ainda costumo sonhar muito com estes lances, mas só que convertidos em gol.
Benê, notadamente a mais nova da turma, que escutara a todo o relato, mais atenta do que todas ali presentes, dando um tom de consolo a uma voz lamentosa, refutou:
— Madame a senhora não sabe o que é fracasso. Imagine só: uma aprazível tarde de domingo, o estádio Mário Filho, maior estádio de futebol do planeta, lotado pelas duas maiores torcidas do Rio e dia de decisão do campeonato carioca.
Neste momento ela fez uma breve pausa e elevou o olhar rapidamente na direção da madame Semitri, para medir o efeito que suas palavras provocara nela. Depois fez um contato visual com cada uma das outras.
Madame permanecia garbosa e majestosa, era a única colocada em uma pequena cadeira de espaldar alto, parecia uma rainha olhando a todas suas súditas de um plano mais alto, mas prestava atenção sem esboçar, no austero semblante, reação de natureza alguma. As outras duas companheiras retribuíram com animadores olhares de incentivo. Benê, então prosseguiu animada:
— Eu, de braço dado com o juiz, entro garbosa em campo para a minha avant premier. O juiz, a autoridade máxima em campo, examinando se tudo transcorria de acordo com o protocolo, me segura o tempo todo, demonstrando quem seria a bola do jogo. Tudo pronto para o início da peleja e começa o meu drama. O árbitro me segura com as duas mãos e me aperta, eu toda prosa, rio de prazer, mas ele faz uns trejeitos de quem não parece nada satisfeito e eu fico apreensiva. Com ar de indecisão ele me entrega ao primeiro auxiliar, que também me aperta, e me passa ao segundo auxiliar e este, depois, aos capitães de Vasco e Flamengo. Passei de mão em mão, entre alguns daqueles que nos usam e tratam com fino trato, e ninguém pareceu gostar da minha forma e sou desprezada. Sentindo-me completamente vazia por dentro, retornei murcha para o vestiário consolada por um amável gandula, que se desdobrou pacientemente tentando reanimar-me e colocar-me mais uma vez em condição de jogo, mas o desalento já havia me tomado em seus braços. Vivi um triste e longo período de abandono e esquecimento, jogada num depósito por falta de especialistas para cuidar de mim. Um dia apareceu, por lá, um político pedindo uma bola oficial para um jogo beneficente, que organizara com fins eleitoreiro, e foi a minha redenção. Como o solicitante gozava de pouco ou nenhum prestígio político junto ao superintendente este não só não negou o pedido como o atendeu prontamente. Entretanto para demonstrar e deixar bem evidente a forma do seu apreço eu, uma bola imprestável, fui cedida. Este gesto mais tarde lhe custou muito caro, mas isto é papo para uma outra vez. O candidato não promissor, na avaliação do superintendente, percebeu e se enterneceu com o meu problema e me trouxe, com urgência, para ser examinada pelo seu Domingos; diagnóstico: um defeito congênito na válvula que me causava uma lenta e contínua perda de ar. Seu Domingos restaurou a minha válvula e desde então eu participo, com destaque, do início de todas as partidas que ele organiza. Passei a ser o seu amuleto, o símbolo de todas as suas campanhas. Nova, mas restaurada, já não sinto esperanças e nem tenho mais a pretensão de desfilar nos grandes estádios sob tratos de profissionais do esporte. No entanto estou sendo preparada para brilhar numa pelada lá na Granja do Torto!
— Tudo é possível minha amiga, não esqueça que todos dizem que o mundo é como a gente: pequeno e redondo! Estaremos torcendo por você e lembre de nós quando lá estiver! — disse, euforicamente, Talismã iniciando seu relato.
— Eu também nunca rolei fora do sítio do Chico, mas me envaideço com isto, embora não conheça outro estádio. Viajei com ele todas às vezes que ele foi para o exterior esperançosos de desfilarmos por algum estádio ou mesmo em um campinho de várzea, mas isto nunca foi possível. No entanto, durante muitos anos, todas as segundas e quintas, eu entrei em jogo e fui às redes milhares de vezes. Artistas de todos os quilates, inclusive do futebol me tocaram. Durante o meu período de reinado absoluto, o Politeama, time do Chico, ficou invicto por muito tempo, sabem por quê? Porque nós éramos cúmplices e tínhamos um trato: eu só visitava os fundos das redes do time dele, quando ia! Um número de vezes menor do que a do adversário. Cansei de dar em cima do goleiro dele, às vezes ele não chegava junto e nem me pegava, aí eu batia com raiva na trave ou, então, saía fula da vida pela linha de fundo. Frustração eu não tenho, muito pelo contrário! Mas, no meu íntimo, carrego uma pequena mágoa. O Chico, apaixonado que é por uma bola, nunca fez uma música para nós!
Finalizou Talismã acrescentando uma forte dose de dramatização a última frase.
— Que Chico é este, que você se infla de tanto orgulho quando fala dele? — questionou madame Semitri, esforçando-se para esconder uma ponta de despeito, mas revelando todo conteúdo de inveja por tamanha veneração.
— Chico Buarque de Holanda! — disse Talismã, enfatizando cada sílaba do nome, sem conseguir disfarçar a ansiedade com que aguardava para responder a tão esperada pergunta.
Benê, uma inveterada sonhadora, que adora analisar tudo sob a óptica dos contos de fada, curiosa de como se originou o relacionamento, perguntou:
— Quando vocês se viram pela primeira vez?
Talismã, agora centro de todas as atenções, deixou escapar um riso matreiro, enquanto enxugava o suor que brotava das suas costuras.
— Bem! Foi amor à primeira vista. Estávamos todas em exposição na vitrine da loja quando alguém gritou: Vejam é o Chico Buarque! — Todas rolamos para a vidraça. Ele, que já estava alguns passos adiante da vitrine, deve ter percebido a movimentação e virou a cabeça curioso. Todas voltaram para seus lugares, assim que ele deu meia volta, menos eu, que fiquei paralisada encarando-o admirada. Ele entrou na loja e voltou com o vendedor e apontou para mim dizendo: Eu quero esta!
Todas, com exceção de madame Semitri, exibiam um semblante de admiração e adoração. Para não perder a sua majestade na rodinha, madame Semitri exibida retomou a palavra:
— O meu dono é ex-dirigente da CBD, agora CBF. Naquele dia, quando o jogo se aproximava do final, ele decidiu que eu seria dele de qualquer maneira, logo assim que a partida encerrasse. Após o apito de final de jogo, com uma amiga, também oficial da copa, na mão, escorou o árbitro do jogo na entrada do vestiário. Em meio à confusão de repórteres, jornalistas e curiosos, fez a troca. Ele se posicionou atrás do árbitro com a minha amiga nas mãos, alguém orientado por ele me puxou dos braços do juiz, que ao se virar se deparou com ele de braço dado com a minha amiga, achando que era eu. O árbitro, rápido e fulo da vida, tomou a minha amiga das mãos dele, pensando estar recuperando-me. Meu dono, então, armou um pequeno barraco com o árbitro para dar um ar de tragédia a comédia e, se esforçando para conter o riso, foi embora de mãos vazias e de orgulho cheio. Hoje em dia, eu só saio de casa para exposições e festas, uma vez ou outra apareço aqui no seu Domingos para fazer alguns retoques.
— Que por sinal fez maravilhas com a minha válvula, pois nunca mais o ar da câmara escapou inadvertidamente. — falou Benê em tom de agradecimento.
Feia de cara, mas boa de jogo, um pouco afastada do grupo, Raimunda: rota, remendada, maltrapilha e envergonhada ouvia a tudo como uma coruja, não dizia nada, mas prestava uma atenção! Benê percebeu nela o desejo de também relatar as suas experiências. Empurrou-a para o centro do grupo e ela se deixou rolar.
— Eu comecei em São Januário, onde fui bem tratada por muitos e maltratada por poucos. Trago nestes descascados e costurados gomos boas lembranças de craques como Romário, Geovani, Ernâne e outros, além de uma verdadeira adoração por Roberto Dinamite. Mas um dia, por problemas políticos internos e ciúmes pela felicidade expressada por uma possível volta de Roberto Dinamite, fui doada para uma Penitenciária. Era bola para todo jogo: campeonatos internos, amistosos e peladas de funcionários. Alguns me tratavam sem nada dever aos profissionais de futebol, mas a maioria era braba mesmo. Para agravar o meu sofrimento o campo lá na Penitenciária não tem grama, é de barro, e eu rezo para chover, assim não sofro tanto com a aspereza do solo. De vez em quando, um funcionário me leva para jogar fora, o campo é maravilhoso: grama importada, marcação com talco e traves emborrachadas, mas a maior parte do pessoal é de dar dó, nada deixando a desejar aos piores lá da Penitenciária. Lá, somos poucas e eu quase não tenho descanso, nossas estórias são parecidas, por isso adoro quando venho ao seu Domingos. Na última vez que estive aqui não havia somente companheiras de futebol de campo, encontrei algumas de salão e uma de beach-soccer, conversamos muito sobre o futebol e chegamos à conclusão de que deveríamos fundar um Sindicato. Eu já soube de jogos de futebol: sem trave, sem torcida e sem rede, mas de nenhum jogo de futebol sem bola. A terra é redonda! O sol é redondo! A lua e redonda! Ora bolas! Afinal, quem é a rainha do espetáculo?
A lua, que aguardara pacientemente a sua hora de substituir o sol, já adentrara o cenário, há algumas horas cheia e brilhante como uma bola. Embora o sol se esforce para fazê-la brilhar, tanto quanto ele, o seu brilho é frio e uniforme e talvez por isto o cantinho de seu Domingos das Bolas, agora vazio, tenha um aspecto nostálgico e sombrio, como a maior parte do centro da Cidade.
RJ, 18 de maio de 2008
