quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Conto do bimestre - jul/ago

O ensaio geral


Sexta-feira, oito dias antecedem o carnaval, e é dia de ensaio geral da Escola de Samba.
— A nossa Escola subiu para o grupo especial e nunca mais vai descer. Isto eu garanto, enquanto vivo estiver! E se bobearem a gente abiscoita o título! — dizia ele, mais uma vez, batendo fortemente com a mão fechada no peito, na altura do coração, e excessivo rubor na face, coreografia que repetia desde o dia da apuração, com esfuziante euforia, quando sua Escola foi declarada campeã do grupo de acesso.
Todos os responsáveis por alas, diretores da Escola e principalmente ele, diretor geral, figura só menos importante que o presidente da Escola, se ocupavam com os preparativos finais para o ensaio geral que se realizaria, mais tarde, naquela noite.
— No desfile do grande dia, depois deste período de quase um ano de mobilização para efêmeros, mas inesquecíveis e alucinantes minutos de êxtases, tudo deverá acontecer conforme o aqui planejado e nos ensaio aprimorados. Nada poderá fugir do roteiro e ninguém terá direito a improviso, a menos que ocorra algum fato novo. E até logo mais! Se Deus assim permitir. — deu ele por terminada a reunião, sorrindo, com ar de grande orador e motivador, após esgotar exaustivamente os apartes concedidos.
Todos saíram e apressado ele se dirigiu para a sala que ocupa na Escola, pois precisava de privacidade para acertar os últimos detalhes para um dia há muito ansiado.
Finalmente, logo após o ensaio geral, seria a vez dele colocar o bloco na rua. Foi um período angustiante e de muita transpiração, mas afinal conseguira dobrar a cabrocha mais cobiçada da Escola. O tempo para concretizar a conquista foi longo, mas o dia escolhido, por ela, para a realização do enredo era apertadíssimo. O desfile de seu bloco tinha que ser brilhante e eficiente, só assim ele conquistaria de vez o seu estandarte de ouro. O coração da cabrocha.
Esperar o término do ensaio geral não seria empecilho para ele se não tivesse um compromisso às sete horas da manhã do dia seguinte. Uma viagem de mais de duas horas de carro, cujos quilômetros finais eram numa estrada em aclive e cheia de curvas. Os velhos sogros já se encontravam hospedados em sua casa, vindos de outro Estado, aguardando para serem levados, por ele, ao batizado de mais um neto, razão da esposa não acompanhá-lo ao ensaio geral. Menos uma questão para contornar e uma desculpa mentirosa a economizar no seu criativo, mas já quase escasso plantel.
O local estava garantido: um quarto quase privativo. Uma cortesia num dos motéis mais requintados da cidade, abatedouro que o dono reservava para alguns amigos reservados. Já fizera algumas incursões no recinto, adorava a sua funcionalidade. Ele não era um carnívoro inveterado, mas adorava experimentar carnes nobres e não economizava desculpas para satisfazer o seu desejo voluptuoso. Razão da sua falência de motivos para preservar sua ilibada conduta junto à patroa.
O pouco tempo que teria para saborear aquele amontoado de carnes, sem nenhuma gordura, sustentada por rígidos músculos e distribuída em perfeita simetria com as partes era o que o incomodava. Não passou, em momento algum, pela cabeça dele adiar o encontro para um dia mais propício. Há situações em que não devemos nos preocupar em unir o útil ao desejável, se convencer que não haverá amanhã é um apelo de melhor eficácia.
Partiu para o conforto do lar com tudo articulado. No trajeto compraria duas garrafas de vinho branco, o predileto de sua patroa, para sorverem durante o jantar em família e diminuir um pouco a ansiedade dela pelo seu retorno após o ensaio.
No jantar foi bastante solícito com os sogros e representou o constrangimento que causaria a ele a ausência dela, sua esposa, no ensaio geral, porém abrilhantou, com exagerada ênfase, a descrição da participação dela no dia do desfile. Mais para salvaguardar o seu dia seguinte do que massagear o ego dela. Para ela não seria sacrifício algum ficar em casa com os pais, muito pelo contrário. Antes de sair ele tomou uma taça de vinho branco com duas colheres de guaraná em pó para garantir o pique. Enquanto bebia o estimulante foi assomado por um sentimento que o fez sentir-se, momentaneamente, um canalha, mas não se deixou abater. Afinal os meios justificam o fim.
Ele chegou à quadra da Escola radiante; algumas alas já estavam posicionadas, as outras aguardavam o ensaio iniciar para tomarem seus lugares logo que o espaço se abrisse com a evolução das alas em formação. A bateria dava um show à parte, enquanto se aquecia a espera do grito de guerra do puxador oficial. Ele, um tanto mais agitado do que o normal, agradeceu a seus colaboradores diretos a presteza no compromisso e deu a ordem: daqui a cinco minutos nós começamos. A agitação dele só atingiu o estado normal quando o olhar pousou na cabrocha. Ela estava mais linda do que nunca e ele, sem ação, admirava aquele pedaço de mau caminho sem saber a quem agradecer aquela dádiva ou maldição. Saiu do seu estado contemplativo, alertado pelo grito do puxador oficial, e se encaminhou na direção dela, a rainha da bateria, e a saudou respeitosamente. Recebeu de volta uma piscadela de olho tão sedutora que quase entregou o ouro guardado a sete chaves. Mas uma vez mais foi salvo pelo puxador, desta vez dando início ao samba enredo.
A quadra de ensaio tremeu, como se houvesse ocorrido um pequeno abalo sísmico, quando o samba ecoou ao som da bateria e o uníssono das vozes presentes. As alas começaram a evoluir de acordo com suas coreografias, a energia emanada pelo coletivo se acumulava e retornava revigorando a cada um com maior potência. O fluxo deste ritual se repetia ciclicamente renovando a carga de energia, que se tornava mais potente a cada redistribuição. Então, todos, indistintamente, eram atingidos de certa maneira e em êxtase, sintomaticamente, esqueciam completamente das mazelas físicas e sociais e se inebriavam com doses cavalares de felicidade. Neste clima de euforia transcorreu o ensaio, trazendo perspectivas alvissareiras em relação ao grande dia.
— Meus irmãos! Muito obrigado! O ensaio foi brilhante! Percebi que todos se empenharam com afinco dando o máximo de si demonstrando onde é o nosso lugar. O sucesso é resultante de muito trabalho e empenho. Depois do que eu observei aqui hoje, não é somente a garantia da nossa permanência no grupo especial que está determinada, nós com certeza vamos estar no desfile das campeãs, a incerteza é só quanto à ordem que nos vai ser destinada neste desfile. Falarei, pessoalmente, ao presidente da nossa Agremiação, com muito orgulho, da dedicação de todos em prol da superação dos nossos objetivos. — encerrou ele, ovacionado pelos presentes, falando em nome do presidente da Escola, que se encontrava internado em convalescença no hospital, após ser submetido a uma melindrosa cirurgia cardíaca.
Quase duas horas da manhã, preocupado com o tempo que anda no fluxo contrário de nossa ansiedade, ele fazia um esforço tremendo para não demonstrar a pressa em se retirar, embora todos soubessem do seu compromisso com a família.
Em meio aos cumprimentos ela surgiu com uma grande bolsa a tiracolo e uma sandália com o salto quebrado, na mão e pedindo discretamente uma carona a ele. Fato que não chamou a atenção de ninguém, pois algumas vezes ela retornou com ele e a mulher, o itinerário era quase o mesmo. Deu a ela a chave e pediu que ela aguardasse no carro.
Dez minutos depois ele chegou no estacionamento e os dois partiram rumo ao ninho de amor. Só depois, bem distante da quadra da Escola, ele deu uma estacionada e a beijou sofregamente, deslizando com uma espantosa habilidade suas mãos por todos os adereços dela. Estava alucinado pelo desejo fomentado no longo tempo de espera. Tamanha era a sanha dele que quase consumaram o ato ali mesmo no carro. Um carro que se aproximava devagar e diminuiu mais ainda a velocidade quando passou ao lado do carro dele, alertou-o do risco que estava correndo. Esperou que o veículo se distanciasse e partiu com ela mantendo-o acelerado, rumo ao motel. Pouco mais de duas horas de puro prazer. A cabrocha superou todas as expectativas dele, tinha um furor insaciável e uma experiência inenarrável.
Saíram da madrugada de volúpias felizes e satisfeitos. Ela, completamente relaxada, vinha com a cabeça apoiada no ombro dele no caminho de volta e quando cruzaram com um outro veículo ela se assustou e se colocou rapidamente na postura de carona. Ele percebeu a intenção do gesto, mas nada comentou. Ela era muito esperta.
— Amor você foi maravilhoso! Que pegada! — disse ela com ar de seriedade.
Ele sorriu contrafeito e ela percebeu.
— Por que este riso?
— Meu amor, eu vou lhe segredar algo: eu só agüentei o tranco porque me encontrava estimulado por um coquetel de viagra com redbull, de outra forma não seguraria a marimba. — foi a vez dela sorrir.
Um riso que foi aumentando gradativamente até atingir a frequência de uma sonora e expansiva gargalhada. Ele parou o carro.
— Chegamos! — ela olhou ao redor e sapecou-lhe um beijo ardente e se despediu.
— Arranje um dia inteiro só pra nós dois e façamos a contraprova. Vá na paz do Senhor! E tenha um bom dia! — e ele seguiu radiante.
Chegou na porta de casa, consultou o relógio, cinco e quinze da madrugada, abriu à porta de casa, com a desculpa na ponta da língua, e se deparou com um absoluto silêncio. Prosseguiu na ponta dos pés, preocupado em não interromper o silêncio, foi até a cozinha colocou água para ferver e foi tomar um rápido banho. Saiu do banheiro, fez o café, arrumou a mesa e só, então, foi até o quarto. A esposa dormia o sono dos inocentes, acordou-a com um beijo e um bom dia calorosos.
— Está na hora amor! Acorde seus pais, senão nos atrasaremos! — ela, ainda, um pouco entorpecida pelo sono, perguntou:
— Que horas são?
— Faltam cinco minutos para as seis horas. — respondeu ele estendendo a mão para ajudá-la a levantar.
Ela deu um salto na cama assustada.
— Dormi demais, acho que foi o vinho! Ponha a água para ferver enquanto eu acordo o papai e a mamãe?
— Não se preocupe amor, a mesa já esta posta! — disse ele solicito.
— Você é mesmo um amor! — disse ela dando-lhe um beijo e saindo em direção ao quarto onde os pais dormiam.
Durante o café, todos, sonolentos, com a exceção dele, ouviam atenciosamente seus comentários sobre o desenrolar do maravilhoso ensaio. Sua narrativa era bastante surrealista, carregada nas cores e nos detalhes difíceis de se construir mentalmente. Assim evitava perguntas incômodas.
Uma hora e meia de viagem, a mulher ao seu lado ressonava, a sogra sentada atrás dele e o sogro ao lado dela roncavam e ele começava a lutar contra o sono. A sensação de cansaço era tão grande que ele estava pensando em dar uma parada para descansar, assim que terminasse o trecho em descida. Depois de algumas curvas uma sandália colorida veio parar perto dos pedais. O coração dele disparou e quase escapuliu boca a fora: A cabrocha esqueceu a sandália no carro! Foi o seu único pensamento. Olhou pro lado, olhou pra trás e todos dormindo. Abaixou o vidro do seu lado e varejou um pé da sandália no caminho. Diminuiu a velocidade e tateou em baixo do banco em busca do outro pé, sem tirar os olhos da estrada. A sogra se remexeu e suspirou, o sangue dele gelou nas veias. Foram segundos que demoraram uma eternidade, até ela quedar-se no ombro do marido. Ele reiniciou a busca e finalmente encontrou o que procurava, atirando pela janela sem parcimônia. Levantou o vidro da porta, examinou, novamente o interior do automóvel e respirou aliviado. O incidente teve pelo menos um saldo positivo: o pronto restabelecimento dele. Toda aquela adrenalina deixou-o esperto novamente.
A viagem de automóvel chegou ao seu final tranqüila.
O problema surgiu durante o desembarque, quando a sogra começou a procurar e a perguntar pelo paradeiro da sandália dela.
— Minha filha você reparou se sai calçada? Eu tenho andado tão esquecida ultimamente que nem tenho certeza se calcei a sandália. É por esta e outras que ontem lhe falei que preciso fazer um exame para verificar se estou com o mal de Alzaimer.
— Mamãe, tente refazer os seus últimos passos lá em casa antes de sair. Se a senhora estivesse com o mal de Alzaimer teria esquecido da nossa conversa de ontem a noite. — o genro, que a tudo assistia impassível com olhar de comiseração, resolveu encerrar o suspense antes que as suspeitas fossem esmiuçadas e o caso ganhasse amplitude.
— O problema é elementar minha querida sogra! Entre aí no carro e vamos até a sapataria, ali na esquina, escolher a mais bela sandália da loja para a senhora.
— Meu genro querido você é mesmo um amor!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Conto do Bimestre - maio/jun

Os três parceiros


— Aquela ali é extremosa demais, ou tem um demasiado recato ou é um desacato total, com ela não tem meio termo, na ponta em que ela atuar não têm limites. — calou-se e olhou pra mesa do lado.
— Esta é do tipo competente, porém indecisa, faz de tudo e bem feito, mas tem que ser comandada. — interrompeu mais uma vez e, acompanhando com o olhar uma nova desfilante, emendou:
— A que passou aqui por mim agora é decidida, toma logo as rédeas e não...! — calou-se de repente.
No exato momento em que ele proferia a sentença, a mulher, a qual ele se referia, virou repentinamente a cabeça e olhou na direção dele.
Ela não tinha ouvido o comentário, sim um grunhido que lhe soou estranho assustando-a. E ele, olhando na direção dela, jocosamente soltou o verbo no seu ininteligível falar de língua enrolada:
— Não estou falando de moral e bom costume, sim de saliência! — disse ele com o mesmo tom de voz pastosa e arrastada que comentava pra si suas observações.
E caiu na gargalhada.
A mulher seguiu, sem perder o prumo, o seu rumo em direção ao banheiro e nada entendeu. Atrás da divisória de treliças, que separa os ambientes, ficou examinando o bebum com um ar investigativo.
Sozinho na mesa do bar, sem saber que dava pé, ele se debatia no raso e se afogava na maior água. Bebera uma quantidade tão estúpida de caipirovodka – vodka, açúcar, limão e um toque de cachaça da fazenda – que perdera a conta e achara o desatino, tudo provocado pelo excesso de bebida e outras coisas. Mas esta caipirovodka, da qual ele se servia, seria a última. Palavras do guarda-vidas Alves, o garçom da praça em que ele estava sentado.
Todos garçons ali são gente boa: pacientes, bem-humorados, atentos e amigos. Conhecem muito bem a hora de encerrar o expediente do cliente que acumula trabalho e jamais dão oportunidade para aqueles que querem cumprir hora extra. Agem com extrema solicitude e muito rigor, sem ferir a suscetibilidade dos que se excedem na bebida.
Hoje ele chegou bem mais cedo do que o costume, no final da tarde, porém já não tinha noção de quanto tempo estava ali, inclusive até já esquecera quem era a mulher que viera encontrar. Sua lembrança havia se perdido no torpor causado pelo excesso de álcool e outras coisas.
— Quando cheguei ainda estava sol, agora tá escuro pra cacete. — repetia ele para Alves, tentando estimar o tempo que se encontrava ali analisando o perfil sexual das mulheres presentes.
Na sua prática investigatória ele aprecia detalhadamente o que elas trajam, como se adornam e maquiam, daí, as avalia, criteriosamente, conjugando as observações com os gestos, estudados ou não, que elas deixam escapar. Eles dizem tudo que elas são: Trajes, maquiagens e gestos.
Era um sujeito brincalhão que de vez em quando se excedia na gozação. Um bom vivant, mas não um estróina daqueles que dilapidam o que alguém amealhou. Trabalhava duro para se divertir a valer. Sabia chegar, permanecer e sair em quaisquer ambientes, porém vez ou outra tomava um porre e se tornava uma mala pesada sem alça. Muito bom de copo e pra chegar ao estado em que se encontrava, deve ter bebido um barril da sua bebida predileta. Uma exclusividade do Galeto do Castelo sugerida por ele, que inclusive fornece a cachaça utilizada no preparo, traz sempre que necessário uma boa carga da fazenda que possui no interior do Estado.
Quis levantar-se para ir ao banheiro, mas não conseguiu ficar de pé, caiu prostrado na cadeira. Repetiu a tentativa mais umas três vezes, grotescamente, sem sucesso. A força da gravidade parecia ter aumentado assustadoramente para ele. Alves, sempre atento, correu e o auxiliou a levantar e a chegar até a porta do banheiro.
Beto Carreira é um bem sucedido analista do mercado de ações. Ele, Neco Nheco-Nheco e Bibelô são três inseparáveis parceiros. Trabalham, atualmente, para corretoras diferentes, mas se juntam, sempre que surge oportunidade, no almoço, na saída ou em qualquer momento de folga. Num dia como o de hoje, sexta-feira, os três, normalmente não se afastariam um do outro se não fossem fortes motivos. Beberiam e beliscariam no Galeto do Castelo, depois beberiam e se fartariam na Termas Aeroporto, que fica quase em frente ao Galeto, ou em outras. Beto Carreira se ressentia da companhia dos amigos. Jamais se preocuparia com o bolo que levou se pelo menos um dos dois estivesse ali.
Segundo ele: beber, num bar, sozinho é um péssimo negócio. E hoje ele se via neste estágio por contingência do encontro frustrado e, agora, se lamentava do alto preço que pagara pelo bolo que levou. Estava num porre homérico.
Os pensamentos passavam desconexos e rápidos na sua mente, enquanto examinava a fisionomia no espelho do banheiro. Bolinara a garganta com os dedos até levá-la a um voluptuoso vômito. Lavara as mãos, a boca, o rosto e o torpor, causados pelo excesso de álcool e outras coisas. Logo após o ato sentia-se outro. Um pouco mais leve e menos tonto. Borrifou a boca com um spray, respirou fundo várias vezes e deu uma última e demorada olhada no perfil da própria silhueta refletida no espelho. Não se viu nitidamente, mas, também não se viu dois. E satisfeito com o que não viu, comentou para si mesmo:
— Porra! Não estou tão ruim assim.
Saiu do banheiro com passadas vacilantes e chegou ao seu lugar inteiro. Não esbarrou em nada e nem caiu. Pediu a Alves que lhe trouxesse um suco de abacaxi bem doce e a conta. Brigou um pouco com as teclas, mas conseguiu ligar para Neco Nheco-Nheco.
Neco Nheco-Nheco estava na Buenos Aires, 21. Informou que Bibelô nem fora trabalhar e que ficou em casa; não estava sentindo-se bem desde o dia anterior. E ele, quando deu por si, se encontrava ali em frente e então entrou na termas. Do outro lado da linha, Beto Carreira riu. Conhecia muito bem qual era o motivo do automatismo daquele rumo.
Neco Nheco-Nheco, um compulsivo sexual, depois de perambular por muitos pomares experimentando a sua fruta predileta, finalmente havia encontrado a moita ideal. Nela brotara a frutinha mais apetitosa da espécie que ele já havia provado. Encontrara, afinal, a outra banda de sua laranja depois de muita procura. Juntar as metades, era nisto que ele se empregava e era deste pensamento que ele se alimentava ultimamente.
Tentava, desde a primeira vez que a encontrara, convencê-la a viver com ele e ela resistia bravamente. Começara sondando a vida dela com as amigas, mais dele do que dela, seus gostos e preferências. Percebeu que poderia dar mais do que ela ansiava, sem se preocupar em receber em troca mais do que já desfrutava. Passou a oferecer a ela mil e uma vantagens, dentre elas um ganho bem maior do que o atual, mas ela resistia. Ela, durante todo período de assédio por parte dele, não apresentava argumentos sólidos que justificassem a sua decisão, motivo pelo qual, a princípio, ele achou que fosse jogada dela. Resistir à oferta para enlouquecer a procura e se vender muito mais caro, valorizando-se tremendamente. Mas a vida muitas vezes ignora as regras do mercado.
Neco Nheco-Nheco, percebendo o estado etílico que o amigo se encontrava, desligou o celular prometendo ir buscá-lo. Mas ele só se decidiu em sair depois de convencer a Mileide, este era o seu nome, não se sabe se de guerra ou próprio, a ir com ele. Ela a princípio relutou, dando uma desculpa pouco convincente, porém ao ouvir o motivo e o nome do motivador da saída aquiesceu, esforçando-se para demonstrar certa insatisfação em deixar a casa.
A autonomia dela, na casa, permitia sua saída a qualquer hora sem o constrangimento da gerente, mas não de um determinado cliente naquele momento. Mileide já era uma balzaquiana, mas, mesmo num ambiente onde a freqüência era atraída por menininhas cheirando a leite materno, tinha alguns fieis admiradores.
Neco Nheco-Nheco percebeu a movimentação do admirador, que os observavam furtivamente, tentando assediá-la, assim que ela se afastou dele, e se retesou, mas esperou a reação dela. Ela segredou alguma coisa com o admirador, apontou na direção onde ele se encontrava e seguiu o seu rumo. Os olhares, rivalizados pelo ciúme, se encontraram e trocaram chispas de ódio e orgulho num duelo de incertezas no qual ambos saíram derrotados.
Quatro latinhas de cerveja depois de sua partida, Mileide retornou e Neco Nheco-Nheco, em meios aos arroubos de arrotos imprevistos e elogios incontidos, demonstrava toda a sua devoção. Ainda surpreso pelo impacto causado pela súbita aparição daquele belo e enfeitado espécime da raça, ele procurou entre os clientes o seu rival com um olhar triunfal, pois na sua cabeça já havia se decido em partir só, logo após a quarta e derradeira cerveja. Não o encontrou e deixou que a frustração roubasse quase toda a sua felicidade, restaram a ele apenas algumas migalhas de lânguida euforia.
Embora na termas eles se relacionassem como dois grandes amantes, fora Neco Nheco-Nheco se comportava como um pretendente que esgotara todos os seus argumentos, mas ainda nutria esperanças e cercava a pretendida para evitar possíveis concorrentes. No táxi, seguindo em socorro ao chamado de Beto Carreira, conversavam como dois grandes amigos, ainda que ele não se furtasse de fazer carga declaratória a cada deixa dela. O papo acabou girando sobre os três parceiros e ela perguntou por Bibelô, estranhando a dispersão do trio numa sexta-feira. Neco Nheco-Nheco fez um comentário sobre o mal-estar alegado por Bibelô pouco antes dele ir se encontrar com ela. Ela levantou a sobrancelha com um ar de preocupação e perguntou:
— O que ele tem?
— Sei lá! Só disse que não estava se sentindo bem. Deve ser mais uma das suas frescuras. — respondeu Neco Nheco-Nheco sem a menor sombra de preocupação.
— Ligue para ele — pediu ela com um tom imperativo e prontamente atendido por ele.
Neco Nheco-Nheco fez a ligação, passou o celular para ela e ficou a olhá-la interrogativamente, enquanto ela aguardava em silêncio, sem dar a menor atenção pra ele, alguém atender. Depois de um tempo, que não incomodou em momento algum a ansiedade dela, ela começou:
— Oi meu amor, aqui é a Mileide, como está passando? — após um breve, mas angustiante silêncio ela tornou a falar.
— Eu e o Neco vamos buscar o Beto, que tá de porre lá no Galeto do Castelo, e partir diretamente para a sua casa. — disse ela passando o celular para Neco.
— Pô, cara! Você disse que era uma coisa à toa! Agora fala de febre, dor de cabeça e diarréia! Não é melhor você ir para o hospital e a gente te encontrar lá? — chegaram ao Galeto do Castelo.
Enquanto Neco Nheco-Nheco despachava o táxi Mileide entrou rapidamente à procura de Beto Carreira. Assim que ela abriu a porta, ele, devido à distância e o estado, não a reconheceu de chofre, mas numa rápida avaliação, ante a sua esfuziante entrada, soltou o verbo:
— Esta sim é muito poderosa! — Mileide, traída pela ânsia de encontrá-lo, não o enxergava.
Ele, ainda, sem reconhecê-la, não resistiu a aquela aparição e lhe mandou um psiu. Ela olhou na direção do som, o reconheceu e entrou convergindo todos os olhares. À medida que ela ia se aproximando e se ajustando a nitidez das pupilas dele, mais ele aumentava a sua expressão de admiração. Ela parou à frente de Beto Carreira e ele foi elevando o olhar vagarosamente, despindo-a de cada peça despudoradamente, até cruzarem o olhar. Ele piscou várias vezes como se não acreditasse no que via e ela, desconcertada com o estado que ele se encontrava.
Acostumada com mil e uma situações da noite ela resolveu usar um arriscado tratamento de choque.
— Vamos rápido pra casa do Bibelô que ele está morrendo! — o efeito foi imediato, Beto, como se fora impulsionado por uma mola poderosa, saltou da cadeira balbuciando palavras ininteligíveis e, puxado por Mileide, saiu andando, normalmente, em direção à porta, onde Neco Nheco-Nheco os aguardava conversando com Aragonês, sócio-gerente da casa.
Neco Nheco-Nheco, ao volante do carro de Beto Carreira, voou baixo do Castelo a Botafogo. Bateu o recorde de velocidade cobrindo aquele trecho.
Aos quarenta e dois anos, aparentando cerca de dez anos a menos, Bibelô, o mais velho dos três, é o que se chama hoje de metrossexual desde dos seus dezessete anos. Um perfeito almofadinha, parece sempre, a qualquer hora do dia, um recém saído do banho: perfumado, cabelos alinhados, evidenciando o corte, barba escanhoada, unhas e pele bem cuidadas. A roupa, sempre muito bem passada, parece ter sido vestida pouco antes de olharmos para ele.
Chegaram ao apartamento de Bibelô e se espantaram com o seu aspecto, embora o seu estado de abatimento com a doença fosse mínimo. É que eles nunca viram Bibelô com a aparência tão descuidada.
Beto Carreira, milagrosamente refeito do porre, mas ainda assustado, foi o primeiro a falar.
— E aí garotão o que houve? Você está com uma aparência nada boa! Já se consultou com algum médico? — Bibelô, que já se encontrava sentado, acompanhado de Mileide, num sofá de um lugar, enquanto ela acomodada no braço do sofá lhe fazia um cafuné, respondeu calmamente:
— Estive no médico na madrugada de quinta-feira levado pelo fígado e trouxe em companhia dele uma infecção intestinal. Estou medicado, mas os sintomas ainda não me abandonaram por completo. Mas estou sentindo que um milagre está se processando. — disse ele elevando o olhar para Mileide, tomando a mão dela e colocando entre as deles após beijá-la.
Neco Nheco-Nheco se remexeu nervosamente em seu lugar atraindo os olhares de todos. Para dissimular se levantou e perguntou meio sem graça:
— Tem cerveja nesta casa?
— Vá à geladeira e escolha. — disse Bibelô.
— Quem vai? — tornou a falar Neco Nheco-Nheco.
Mileide fez um sinal positivo e Beto Carreira pediu uma coca. E Neco Nheco-Nheco, olhando para Beto Carreira com ar de deboche, emendou:
— Qual? — Beto Carreira, com um brilho de reprimenda no olhar, respondeu friamente:
— Light. — Neco Nheco-Nheco, sem graça, saiu e foi buscar as bebidas.
Beto Carreira se levantou e num gesto de comoção desalinhou, mais ainda, os cabelos de Bibelô. Ficou olhando-o por alguns segundos, beijou-lhe carinhosamente ambas as faces e se encaminhou para a larga janela.
Mileide, que observava enternecida a fraterna cena, ali naquele momento teve a noção exata da dimensão do choque que provocara em Beto Carreira. Beijou a testa de Bibelô e se encaminhou para onde Beto Carreira estava. Beto Carreira olhava o vazio com os olhos marejados e evitou encará-la antes de secá-los disfarçadamente. Ela abraçou-o por trás, beijou-lhe a nuca e se desculpou.
— Meu amor, me perdoe o mau jeito, mas foi a única maneira que achei que pudesse tirar você rapidamente daquele estado. Só agora percebi o que poderia ter causado. — Beto Carreira se virou de frente para ela, que o segurou pelos ombros, e recebeu um selinho no momento em que Neco Nheco-Nheco voltava com as bebidas.
Neco Nheco-Nheco, num esforço supremo, segurou a onda de ciúme que inundou o seu amar revolto, mas deixou respingar um pouco de ressentimento ao entregar as bebidas.
Em outra situação Neco Nheco-Nheco entregaria os copos, abriria as latinhas e serviria o primeiro gole, mas hoje ele, propositadamente, esqueceu a cortesia. Mileide, que percebera, desde o primeiro momento, o clima instável provocado pelo vento que soprava lá dos lados de Neco Nheco-Nheco, amenizou o ambiente.
— Oh meu amor! Onde está a gentileza que sempre lhe acompanha? Abra a latinha pra nós. — Neco Nheco-Nheco pediu desculpas, abriu as latinhas e serviu o primeiro gole.
Levou uma bitoca de gorjeta e rindo de orelha a orelha se afastou e foi conversar com Bibelô.
Mileide e Beto Carreira se viraram para o passeio e continuaram a conversar na janela. Ela em tom de confidência comentou a mudança de comportamento de Neco Nheco-Nheco, quando ela e os três se encontram fora da termas.
— Ele se comporta como se fosse o meu dono e sente ciúmes de vocês dois, mais de você do que de Bibelô. Eu nunca me comprometi ou prometi nada a ele! — Beto Carreira intercedeu em favor do amigo dizendo que não foi por falta de insistência dele.
E ela na defensiva retrucou confessando gostar de se relacionar com os três, mas de forma diferente.
— De forma diferente! Como? — espantou-se Beto Carreira com ar de nenhum entendimento.
Mileide, então começou a discorrer:
— Se eu tiver que optar por um de vocês ele seria o último. Você seria o primeiro, pois com você eu sou inteira, com você eu sou corpo e alma a minha entrega é total. Bibelô é galante, sedutor e adora conversar francamente quando encontra a mulher certa. Entre vocês três é o que mais fica comigo e o que menos transa. Neco só me tem o corpo, ele é um insaciável e pensa em sacanagem o tempo todo. Só conversa quando o assunto é sobre eu deixar a casa para morar com ele. Eu não os conhecia, mas já gostava de vocês de tanto Bibelô falar da amizade que os uniam e comentar as andanças e loucuras de vocês, principalmente depois da sua separação e a do Neco. Mas eu acho que apesar das diferenças eu conseguiria ser fiel aos três.
Beto Carreira virou de costas para a janela, emudeceu e pensativo ficou olhando para os dois parceiros que conversavam no fundo da sala. De repente ele irrompeu numa estrondosa e interminável gargalhada assustando a todos, pois só terminou depois de uma sincope de curta duração. Ainda entorpecido abriu os olhos e se viu olhado de cima por três semblantes preocupados. Sentou-se, olhou para os três apertando os olhos, como quisesse se esconder atrás das palavras que diria, e detonou a bomba:
— Vamos nos casar? — Mileide, Neco Nheco-Nheco e Bibelô, sem nada entender, ficaram olhando-o com um espanto talvez maior do que se estivessem diante de um extraterrestre.
Até que Mileide saindo do estado catatônico balbuciou:
— Dá pra você destrinchar melhor o que quer dizer. — Neco Nheco-Nheco e Bibelô, ainda meio abobalhados, sentaram trocando olhares alusivos a uma possível loucura do parceiro.
Beto Carreira olhou demoradamente para Mileide, depois para Neco Nheco-Nheco e por fim para Bibelô e sorriu largamente.
Um a um todos se levantaram, se juntaram num abraço único e Beto Carreira exclamou:
— Todos para uma e uma para todos!

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Conto do Bimestre - mar/abr

A reunião


A noite se aproximava da madrugada, mas, ainda, distava algumas horas do ponto em que uma se transformaria na outra. A presença da lua nova acompanhada de nuvens nada hospitaleiras acentuava os mistérios ocultos nas sombras da noite.
Em cada reentrância do acidentado caminho o negrume da noite parecia esconder uma surpresa desagradável para a comitiva que trafegava, vagarosamente, orientada apenas pelas luzes das lanternas dos automóveis para não chamar a atenção da exígua vizinhança. O destino da caravana era uma choupana completamente cercada de árvores numa extensa e erma planície. Em cada veículo um participante do encontro, com o respectivo motorista e nada mais, este foi o trato acertado com antecedência e certificado, pelos participantes da reunião, na saída do grupo.
O lugar, que após muita discussão foi apontado como o menos pior para realização da reunião, não era condizente com a ostentação que os participantes estavam acostumados, porém era adequado para manter o sigilo do reservado encontro. Um protocolo de exigências previamente elaborado, com o de acordo de cada participante, e cumprido à risca por todos, possibilitou a chegada até o ponto estabelecido, sem nenhum transtorno.
Já dentro da sala todos se acomodaram da melhor forma possível, um exercício que exacerbou, mais ainda, o enfado estampado nas quase indecifráveis fisionomias, que só se revelavam no momento de demonstrar insatisfação com a situação. Ninguém se preocupou em esboçar um mínimo gesto de cordialidade, mesmo cientes de que estavam ali para tratar de interesses que poderiam aumentar tremendamente os seus poderes.
A reunião começou e a atmosfera reinando no recinto seguiu carregada e sujeita a pancadas ao menor sinal de contrariedade explicitada por alguém. Ninguém arrefeceu a expressão, muito pelo contrário, os olhares, agora, trocavam furtivas chispas de rancor, mas os semblantes não se encaravam com a mesma intensidade como se vigiavam de soslaio. Se, por descuido do emissor, pelo menos um dos olhares lançados de rabo de olho fosse percebido, inadvertidamente, cara a cara, estaria aceso o estopim para uma grande explosão de ânimos, tamanha a carga de animosidade contida em cada olhada de esguelha. Notava-se, não se sabe se provocado pelas formas nada anatômicas do improvisado mobiliário ou do ar, abafado e quase irrespirável do local que se encontrava com as duas janelas fechadas, um grande desconforto físico em meio às falações. Era grande a impaciência revelada na movimentação excessiva dos corpos em seus encostos. O clima de desconfiança mútua crescia.
Os comportamentos, até então, ainda bem comportados, se não levados em consideração os modos grosseiros dos presentes, começavam a revelar uma certa intolerância com o cômodo e a incômoda reunião. Era nítida a ausência de qualquer aproximação entre as partes, porém a hostilidade, escondida por trás de indisfarçáveis disfarces, já era perceptível, porém, propositadamente, não notada.
Uma tênue, mas constante brisa de medo pairava em suspensão no ar. Entretanto, impassíveis, as expressões faciais dos indivíduos ali presentes não revelavam o que sentiam interiormente. Cada qual se protegia a sua maneira, para não deixar transparecer a intensidade do desconforto que sentia e que o fustigava, pois intimamente sabia que o menor sinal de intimidação que deixasse transparecer agora, traria grandes transtornos depois, no momento de uma possível barganha.
O medo para eles era somente uma palavra, da qual não ignoravam o verdadeiro significado, mas desprezavam o que traduzia. Eram tidos e havidos como destemidos e se impunham através do medo que provocavam naqueles que tinham medo e tinham medo de enfrentá-los e, portanto, jamais poderiam vencê-los. Nem ao medo nem a eles. Não que eles não sentissem medo, pois todos sentimos, mas o que os diferenciavam era um estranho e confuso sentimento em relação ao medo; tinham medo de sentir medo e o medo de sentir medo os afastavam da sensação de medo.
Os sorrisos zombeteiros e as expressões maliciosas aparentados eram a verdadeira face da dissimulada mentira ali representada. Tudo o que se falava e combinava não condizia em nada com o que deveria ser efetivado de fato na prática de quem dizia. As palavras proferidas seguiam um itinerário bem distante do caminho ao qual realmente se queria chegar, evitando-se, assim, que a sua verdadeira intenção fosse revelada. Ninguém queria mostrar o verdadeiro mapa da mina.
O clima na sala havia mudado drasticamente, de ruim para pior, quando se estabeleceu um completo desacordo entre as partes envolvidas na questão em discussão. A proposta de conciliação não se afinava com nenhuma proposta individual das partes envolvidas, muito pelo contrário, apontava para direções diametralmente opostas de cada uma, sem a menor chance de um acordo. Ninguém queria dar o braço a torcer e abrir mão da sua prerrogativa em prol de um consenso que traria vantagens para todos. Cada um alimentava a esperança de subjugar os outros e ficar com todo quinhão. A brilhante idéia de transformar tudo num único bolo e formar um caixa único, administrado com transparência, e dividir a receita entre eles, independente do tamanho da área de abrangência de cada um, pura e simplesmente não atingiu os anseios de ninguém. É que cada um, secretamente, ansiava em tomar a parte do outro, se fortalecer, tomar as outras partes restantes e ficar com tudo.
Felizmente, para todos que poderiam direta ou indiretamente sofrer na pele e no bolso os efeitos da centralização das atividades deles, a desunião perdurava. A fusão dos quatro poderes, ali representados pelos seus dirigentes maiores, significaria o estabelecimento de uma nova ordem e a falência de um conjunto importante no sistema. Apesar das constatadas e provadas evidências, eles continuavam a ignorar que as operações para se protegerem, sobre todos os aspectos, uns dos outros, os consumiam muito mais do que enfrentar os adversários em comum e os enfraquecia diante deles. Os adversários, através de alguns de seus representantes, continuariam a se locupletar com as vantagens que usurpavam de cada um deles vendendo facilidades.
Enfim algo próximo do que chamamos cordialidade surgiu.
Diante da perspectiva da despedida, quando cada um percebeu que poderia ficar livre da presença indesejável dos outros, efusivos cumprimentos de despedidas ecoaram. Um indecifrável sorriso em cada rosto, durante os aperto de mãos, escondiam votos que ninguém ousava confessar de viva voz. Eram promessas de um até breve usurpador.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Conto do Bimestre

I. Mulheres, bebidas e futebol



— Com quantas mulheres diferentes você já trepou? — perguntou, sem cerimônia, Machado, com um sorriso de escárnio no canto da boca e um olhar petulante, ao companheiro de mesa de bar que acabara de conhecer, mas de quem nem guardara o nome.
Foram apresentados por Augusto, conhecido de ambos, um colega de peladas com quem Barreto, coincidentemente, encontrara nas imediações e fizera o convite para o chope, mas que antes de sentar-se com eles à mesa dera um pulo ao banheiro.
Estranha maneira de se iniciar uma conversa com quem acabara de conhecer, pensava Barreto surpreendido. E evitando encarar demoradamente a Machado, para não mandá-lo tomar num lugar que a julgar pela sua exagerada curiosidade sexual não agradaria, ele continuou absorto em seus pensamentos, numa muda e íntima conversa.
Logo comigo, que detesto a vulgaridade de certos comentários e sou reservado nos meus assuntos do trato feminino, acontece uma situação vexatória desta. Não que eu seja pudico ou recatado com as mulheres, mas sexo é um assunto que gosto de comentar e discutir com as parceiras para encontrar e extrair o melhor do prazer para os dois lados. E, além do mais, detesto comentar com quem ando ou já andei trepando, ou o que fiz ou deixei de fazer com quem quer que seja.
Machado, achando que o silêncio perscrutador de Barreto fosse devido a algum levantamento numérico das transas que tivera, aguardava a resposta se remexendo na cadeira impaciente. A sua ansiosa espera era motivada apenas para constatar o seu recorde e exibir oportunamente a sua eficácia diante de mais um que certamente sucumbiria diante de seus números. Achava-se imbatível.
Barreto, ainda ensimesmado com a pergunta, se lembrou de um comentário feito por Augusto, há muito tempo, sobre um amigo que se vangloriava de nunca ter encontrado alguém que tivesse estado com mais mulheres do que ele. Lamentou-se, intimamente, não se lembrar do número de vezes comentado, se é que o amigo falou em números, para fazer sombra a Machado e empanar o brilho daquela empáfia. Pois só podia ser ele a figura que Augusto esboçara naquele dia. E seria por demais interessante presenciar a reação dele ante a um número maior do que o seu e saborear, com um inusitado prazer, uma insossa vingança, condimentada com uma mentira apimentada, mesmo sabendo o mal que ela lhe faria.
Após este introspectivo e minucioso exame da circunstância em que se encontrava, ele resolveu ser enigmático na resposta:
— Seguramente com um número bem menor de mulheres do que você já transou e certamente com menos mulheres do que você imagina.
— Porra Machado! Eu não acredito que você teve a coragem de incomodá-lo com esta sua neura! Acabo de lhe apresentar um amigo e você o recebe com esta velha e escrota mania. Não dá pra ter paciência, sondar quem ou como ele é e ver se tem cabimento fazer esta descabida pergunta! — bronqueou Augusto, soltando os cachorros em cima de Machado, ao retornar do banheiro a tempo de ouvir a resposta de Barreto e avaliar qual fora o já tradicional e afiado questionamento de Machado.
Machado não retrucou, mas deu uma gargalhada um tanto suspeita. Pois seu tom era carregado de sons e trejeitos que se aproximavam da bestialidade. Pediu desculpas aos companheiros de mesa, ergueu a tulipa de chope, que o garçom acabara de servir, para um brinde e deu uma golada que levou metade do seu conteúdo.
— Eu não resisto à curiosidade de saber se alguém já transou com mais de mil, seiscentas e vinte e duas mulheres distintas! — exclamou ele babando, ao tentar limpar com a ponta da língua a espuma do chope que ficara grudada no enorme bigode, depois de esvaziar a tulipa com uma segunda golada.
Os olhos, inflados de um orgulho bestial e doentio, não piscavam e nem desgrudavam dos de Barreto, encarando-o para avaliar o efeito que a sua declaração causara.
Isto é inacreditável! Repetia Barreto, com ar de pasmaceira, o tempo todo, após se engasgar com o gole de chope que bebera. A voz de Barreto lembrava o som de uma agulha presa numa trilha arranhada de um disco de vinil, matraqueando o mesmo trecho como se não soubesse dizer outra coisa.
A estupefação de Barreto continuava a arrancar as tonitruantes e suspeitas gargalhadas de Machado e meneios de cabeça de Augusto que pareciam avalizar orgulhosamente a fidedignidade da afirmativa.
Barreto olhava para um e para outro se esforçando para compreender a reação e o comportamento daqueles dois perfeitos imbecis, que deveriam achá-lo um idiota. Era um número absurdo, porém possível, mas a encenação era o que o incomodava.
Ainda há pouco, Augusto repreendera com exacerbada veemência a Machado pela impropriedade do seu comentário que, agora, com gáudio, parecia celebrar.
Barreto ensimesmado com a observação se levantou e, sob o pretexto de ir ao banheiro, foi ordenar as idéias e avaliar, friamente, se valia à pena continuar ali na companhia de ambos.
Augusto era mais um conhecido do que amigo dele, travaram algumas conversas despretensiosas nos churrascos que rolavam depois das peladas que costumavam jogar num clube aos sábados a tarde e domingos pela manhã, ou enquanto aguardavam a vez de entrar em campo entre uma partida e outra. Augusto um aficionado pelo futebol, mas de poucas habilidades com a bola, se aproximara dele encantado com sua destreza e elegância no trato da bola e vivia enaltecendo a sua performance em campo. Sempre conversaram amenidades, jamais travaram um papo que desse para ele fazer uma avaliação do caráter de Augusto, mas o comportamento dele durante as partidas que disputava não era nada auspicioso.
No seu ponto de vista a análise do desempenho comportamental de um desportista no auge da disputa durante a prática esportiva, realizada, principalmente, com fins recreativos, é um ótimo avaliador do tipo de personalidade e do caráter do praticante. A vontade de ganhar, quando a derrota traz algum tipo de desvantagem, acirra, ainda mais, os ânimos, mexe com as emoções e aflora os instintos, daí revela personalidades e evidencia o caráter. Muito embora, hoje em dia, a personalidade seja algo banalizado por alguns cursos que criam tipos adequados para certas ocasiões e posições profissionais e até mesmo situações sociais. Profissionais amestrados, todos com um comportamento pessoal padronizado e robotizado para impressionar em várias situações, com objetivos voltados apenas para atingir as metas estabelecidas, mas que felizmente diante de pressões extremas revelam o seu verdadeiro caráter.
Tão logo Barreto se afastou, Augusto comentou com o amigo de longa data:
— Vamos pegar leve com o Barreto, ele é um sujeito legal, fino e educado. Joga muita bola, melhor do que muitos profissionais por aí, mas só joga na bola e futebol não é esporte para gentleman. Eu acho que ele não foi profissional por isso. Já batemos muito papo e ele nunca falou de mulheres, mas não me parece ser um cara enrustido, eu já o vi muitas vezes com olhar dissimulado, mas gordo em direção a elas. Quando ele voltar, vamos falar de outras coisas e ele sabe de muitas, além de conhecer fatos interessantes. Tem amigos em tudo que é lugar, pois era chamado para muitas peladas até por jogadores profissionais.
— E ele ainda joga? — perguntou Machado, que tinha o futebol como o segundo esporte de predileção.
— Infelizmente ele não joga mais, senão estaria lá no nosso time. Ele tem uns sete anos a mais do que a gente, mas sempre teve um bom preparo físico e jogaria fácil. Jogava por gosto e ia a qualquer lugar para bater uma bolinha. Dá uma maneirada aí no papo por que ele está de volta! — pediu Augusto a Machado diante da aproximação de Barreto.
Barreto se acomodou na cadeira, pediu outro chope pois o anterior havia esquentado com a sua demora em retornar ao martírio que aqueles dois prometiam.
— O Augusto me disse que você era um craque de primeira grandeza nas quatro linhas do campo, parou de jogar por que? — perguntou Machado, em tom amistoso, mas mostrando as travas da chuteira ao pronunciar com muita ênfase e certa mordacidade: nas quatro linhas do campo.
Barreto percebeu a perspicácia mas resolveu entrar no jogo, futebol era um tema que ele gostava de comentar sem reservas.
— Sofri uma ruptura no tendão do calcanhar esquerdo e receoso depois da recuperação, pois já estava meio cascudo, resolvi parar. Jogar com receio de contundir-se não é nada bom, nos torna mais vulnerável e empana o nosso brilho.
— Enquanto você estava no banheiro conversávamos sobre idade e futebol. Eu e o Augusto nos conhecemos prestando o serviço militar obrigatório e ele me disse que você tem uns sete anos de frente, na idade, em relação a nós. Você não aparenta ter cinqüenta e um anos de maneira nenhuma, aliás aparenta ter a idade de nós dois!
— Eu nunca me profissionalizei, mas nunca me descuidei e, até hoje, ainda me cuido fisicamente: nado, corro e faço musculação. Sempre me preocupei com a qualidade de vida.
Machado deu um risinho sarcástico, olhou para o amigo, num pedido mudo de desculpas, e emendou de primeira:
— Então você já levou dedada! — Barreto logo percebeu como seria a marcação de Machado e sentiu que não teria sossego.
Machado ficaria toda a conversa marcando serrado, fungando no seu cangote e entrando de sola em toda sobra de bola espirada ou dividida.
Rápido de raciocínio, o que sempre coroou as suas atuações em qualquer campo de atuação, Barreto optou de início em jogar com a bola colada ao pé e dar nele uns dribles desconcertantes e ele, envergonhado, iria procurar outra faixa do campo para jogar.
— O exame de próstata é um exame que todos nós, homens que se prezam, devemos realizar depois de uma certa idade, principalmente se temos preocupações sexuais. Alguns desinformados fogem do exame como o diabo da cruz com medo do homossexualismo. Coisa que não tem cabimento. — Augusto correu na cobertura do amigo e parou a jogada fazendo uma falta violenta.
— Mas tem cara que fica viciado em toque na próstata e, lá na hora do vamos ver, pede a mulher para enfiar o dedo. — e os dois se puseram a gargalhar com uma satisfação fora do comum.
Confraternizaram-se de maneira efusiva, celebrando o desarme de um adversário e não de um companheiro para compor e dividir o campo com eles. Transparecia que se divertiam trazendo aborrecimentos para o convidado da mesa.
Consternado, Barreto pensou em abandonar o jogo e sair de campo, a marcação dupla exigiria muito dele e ele estava ali para se divertir, desopilar o excesso de uma semana em que trabalhara exaustivamente e aborrecer-se era tudo o que não queria. Simularia um súbito mal estar, uma contusão que o impedisse de continuar e iria embora.
Augusto, num lance puramente casual, pois não é dado a estes feitos, fez um belo lance, quando vislumbrou de relance o ar de enfado estampado na fisionomia de Barreto, iniciando uma nova jogada. Demonstrando um reflexo adquirido em situações anteriores, chamou o garçom e pediu mais três chopes, escudando-se no pretexto da saideira. Com a chegada dos copos, entusiasticamente, propôs um brinde a saúde e a paz entre eles. Ergueu o seu copo, em saudação, sendo acompanhado pelos outros dois.
Machado, que nada percebera da mudança de jogo imposta por Augusto, acrescentou:
— E ao sussexo também! — deu uma risada obscena, desta vez não acompanhada por Augusto, que foi interrompida por uma golada que levou metade do conteúdo do copo.
Limpou com o dorso da mão o farto bigode e depois de cofiá-lo, demoradamente, incomodado com o silêncio que se abateu perguntou:
— Se você jogou toda esta bola que Augusto disse que jogou, por que não se profissionalizou?
— Eu cheguei a jogar no infanto-juvenil do Flamengo, fiz alguns jogos no juvenil, mesmo tendo menos idade, mas optei por estudar quando não deu para conciliar o futebol com o estudo. Queria fazer medicina e os estudos tomaram o tempo do futebol, mas acabei me formando em educação física e psicologia. — Machado, demonstrando, pela primeira vez, um interesse focado somente no assunto que estava em voga, sem buscar fatos para provocar a serenidade de Barreto, vibrou demonstrando sua idolatria.
— Então, você jogou com o Zico? — Os olhos de Barreto brilharam com uma centelha de saudosa alegria.
Ele fez uma rápida pausa, sorveu um gole e, com uma inflexão nostálgica na voz, complementou:
— Joguei só uma vez, mas joguei com: Adílio, Júlio Cezar, Júnior, Andrade, Tita e outros. — Machado a cada nome que Barreto citava arregalava os olhos com verdadeira admiração e, em uníssono com Augusto, repetia o ritual da torcida, quando é anunciada, pelo locutor, no estádio Mário Filho, a escalação de seu time.
— Augusto e eu somos rubro-negros doentes, os jogos do Mengão, aqui no Rio, nós não perdemos um, vamos a todos. Torcemos muito por esta turma, com certeza o melhor time do Flamengo de todas as épocas. Você bem que podia armar uma partida deles contra o nosso time, lá no campo do sítio do Augusto. A gente arma um churrasco com pagode e muitas mulheres e curte um domingo numa boa. O que você acha?
— Posso tentar, ainda mantenho contato com alguns deles e posso falar com outros jogadores. — Augusto, entusiasmado pela idéia do amigo, esfregando, feito uma criança cheia de alegria, as mãos uma na outra, se pronunciou:
— Basta me avisar com uma semana de antecedência que eu organizo tudo. Fica tudo por nossa conta, vai ser um festão. — Machado, alisando o seu bigode, resolveu voltar a falar do seu esporte predileto.
— No futebol fui sempre um beque esforçado e sem muito recurso técnico, mas sempre joguei duro e na bola. Mas na cama eu jogo na frente e não há goleador mais viril do que eu. Jogo desde os quatorze anos e tenho todos os registros aqui nesta súmula: nome, idade, data, hora, local e algumas ocorrências que mereceram registros. Vou chegar as duas mil transas com mulheres distintas. — disse ele exibindo um velho e surrado fichário com capa de couro.
Abriu uma página ao acaso e mostrou para Barreto, que curioso leu um trecho do seu conteúdo: “Telma, treze anos, 06/03/1995, vinte horas e trinta e sete minutos, Fortaleza. No meu primeiro dia em Fortaleza peguei-a num bar na beira-mar, na praia de Jericoacoara. Tipo indígena, vestia uma farda de normalista, é assim que eles chamam uniforme aqui. Nova, mas uma veterana na arte do sexo.” Na linha seguinte mais um registro: “Maria do Socorro, vinte e um anos, 07/03/1995, vinte e duas horas, Fortaleza. Meu segundo dia em Fortaleza; garçonete do bar do hotel, eu decidi ficar com ela os dois dias restantes da minha estada, uma mulata maravilhosa.” Barreto continuou passando as folhas, de maneira mecânica, sem ler os registros, até chegar à última anotação, cuja data era do dia anterior. “Eduarda, trinta e três anos, 28/02/2004, duas horas e dez minutos, Copacabana. Garota de programas.” Barreto pediu uma água gaseificada ao garçom, fechou o fichário e o entregou a Machado, que, durante o período de leitura dele, traçava com Augusto estratégias para o possível churrasco.
Machado, interrompendo o alinhavo da operação, perguntou ensimesmado:
— Já vai embora ou não que beber mais? — e Barreto, se esforçando para esconder o enfado, respondeu que havia esgotado a sua cota de bebida alcoólica, por hoje.
Machado, provocativo, num lance de puro efeito, mostrando, desta feita, uma certa sutileza no trato da bola, até então não revelada, retrucou com certa mordacidade na voz:
— Duas tulipas e já está esgotado? Que homem é você que se contenta com duas, comigo é no mínimo três em duas goladas e olhe lá! — Barreto, não disposto a continuar em campo, se fez de desentendido.
— Bem! Cada um deve ter a noção exata de até aonde pode ir, isto é de grande valia, principalmente quando decide exceder o seu limite. — Machado cofiou o grande bigode, arqueou a sobrancelha, elevou o olhar, com ares de pouco ou nenhum entendimento, e devolveu a bola com uma potência desnecessária:
— Não entendi! Dá pra explicar mais claramente?
— Se você conhece o seu limite sabe perfeitamente quando o ultrapassou e que já não está completamente senhor de si e nem da situação, então deve se redobrar nos cuidados para não cometer atos de que venha a se envergonhar ou prejudicar. O ânimo exaltado é suscetível a destemperar-se com extrema facilidade. Entendeu! — disse Barreto de forma, paciente, pausada e clara, como se fosse um conselheiro apontando a eminência de uma saturação.
Suas palavras, ditas com uma entonação modulada e em baixo tom, soaram como uma velada ameaça aos ouvidos de Machado.
Ameaçar jamais passou pela cabeça de Barreto, estava distante da sua intenção, mas foi desta maneira que Machado entendeu, porque era assim que ele queria entender, desde de que pedira a Barreto maiores explicações. Entretanto a frieza e a entonação utilizadas por Barreto, na resposta, inibiram o rompante que assanhava a sua reação. Machado perdeu o fio e ficou frio.
Augusto, que observava a tudo calado, percebeu, na sua ótica, que o jogo estava ficando ríspido demais. Achou que apesar da beleza da jogada, Barreto abusou da sua categoria dando um efeito desnecessário ao lance; poderia ter sido mais simples na sua execução. Porém resolveu não correr em socorro do amigo de longa data. Não que não tivesse vontade, mas pensou na perda da oportunidade da realização da pelada com os profissionais em seu sítio. A peleja seria o maior acontecimento na sua região e ele tinha interesses políticos. Resolveu acabar com o jogo dali, marcaria uma revanche no sítio ou noutro lugar se não fosse possível no sítio. Chamou o garçom, pediu a conta e pagou a despesa.
Barreto levantou-se rapidamente, entregou um cartão para Augusto, se despediu e partiu. Não queria dar, aos dois, chance de um outro convite.
Machado, assim que Barreto sumiu de vista, desceu a lenha:
— Esse cara tem um pavio muito curto! Não respondi a ameaça dele a altura em consideração a você. Quem ele pensa que é? — Augusto não fez nenhum comentário ao desabafo do amigo, limitou-se a sorrir.
Machado olhou para o semblante dele, amolou o fio e mandou o corte:
— Vamos beber umas lá no shopping das carnes mijadas!