I. Mulheres, bebidas e futebol
— Com quantas mulheres diferentes você já trepou? — perguntou, sem cerimônia, Machado, com um sorriso de escárnio no canto da boca e um olhar petulante, ao companheiro de mesa de bar que acabara de conhecer, mas de quem nem guardara o nome.
Foram apresentados por Augusto, conhecido de ambos, um colega de peladas com quem Barreto, coincidentemente, encontrara nas imediações e fizera o convite para o chope, mas que antes de sentar-se com eles à mesa dera um pulo ao banheiro.
Estranha maneira de se iniciar uma conversa com quem acabara de conhecer, pensava Barreto surpreendido. E evitando encarar demoradamente a Machado, para não mandá-lo tomar num lugar que a julgar pela sua exagerada curiosidade sexual não agradaria, ele continuou absorto em seus pensamentos, numa muda e íntima conversa.
Logo comigo, que detesto a vulgaridade de certos comentários e sou reservado nos meus assuntos do trato feminino, acontece uma situação vexatória desta. Não que eu seja pudico ou recatado com as mulheres, mas sexo é um assunto que gosto de comentar e discutir com as parceiras para encontrar e extrair o melhor do prazer para os dois lados. E, além do mais, detesto comentar com quem ando ou já andei trepando, ou o que fiz ou deixei de fazer com quem quer que seja.
Machado, achando que o silêncio perscrutador de Barreto fosse devido a algum levantamento numérico das transas que tivera, aguardava a resposta se remexendo na cadeira impaciente. A sua ansiosa espera era motivada apenas para constatar o seu recorde e exibir oportunamente a sua eficácia diante de mais um que certamente sucumbiria diante de seus números. Achava-se imbatível.
Barreto, ainda ensimesmado com a pergunta, se lembrou de um comentário feito por Augusto, há muito tempo, sobre um amigo que se vangloriava de nunca ter encontrado alguém que tivesse estado com mais mulheres do que ele. Lamentou-se, intimamente, não se lembrar do número de vezes comentado, se é que o amigo falou em números, para fazer sombra a Machado e empanar o brilho daquela empáfia. Pois só podia ser ele a figura que Augusto esboçara naquele dia. E seria por demais interessante presenciar a reação dele ante a um número maior do que o seu e saborear, com um inusitado prazer, uma insossa vingança, condimentada com uma mentira apimentada, mesmo sabendo o mal que ela lhe faria.
Após este introspectivo e minucioso exame da circunstância em que se encontrava, ele resolveu ser enigmático na resposta:
— Seguramente com um número bem menor de mulheres do que você já transou e certamente com menos mulheres do que você imagina.
— Porra Machado! Eu não acredito que você teve a coragem de incomodá-lo com esta sua neura! Acabo de lhe apresentar um amigo e você o recebe com esta velha e escrota mania. Não dá pra ter paciência, sondar quem ou como ele é e ver se tem cabimento fazer esta descabida pergunta! — bronqueou Augusto, soltando os cachorros em cima de Machado, ao retornar do banheiro a tempo de ouvir a resposta de Barreto e avaliar qual fora o já tradicional e afiado questionamento de Machado.
Machado não retrucou, mas deu uma gargalhada um tanto suspeita. Pois seu tom era carregado de sons e trejeitos que se aproximavam da bestialidade. Pediu desculpas aos companheiros de mesa, ergueu a tulipa de chope, que o garçom acabara de servir, para um brinde e deu uma golada que levou metade do seu conteúdo.
— Eu não resisto à curiosidade de saber se alguém já transou com mais de mil, seiscentas e vinte e duas mulheres distintas! — exclamou ele babando, ao tentar limpar com a ponta da língua a espuma do chope que ficara grudada no enorme bigode, depois de esvaziar a tulipa com uma segunda golada.
Os olhos, inflados de um orgulho bestial e doentio, não piscavam e nem desgrudavam dos de Barreto, encarando-o para avaliar o efeito que a sua declaração causara.
Isto é inacreditável! Repetia Barreto, com ar de pasmaceira, o tempo todo, após se engasgar com o gole de chope que bebera. A voz de Barreto lembrava o som de uma agulha presa numa trilha arranhada de um disco de vinil, matraqueando o mesmo trecho como se não soubesse dizer outra coisa.
A estupefação de Barreto continuava a arrancar as tonitruantes e suspeitas gargalhadas de Machado e meneios de cabeça de Augusto que pareciam avalizar orgulhosamente a fidedignidade da afirmativa.
Barreto olhava para um e para outro se esforçando para compreender a reação e o comportamento daqueles dois perfeitos imbecis, que deveriam achá-lo um idiota. Era um número absurdo, porém possível, mas a encenação era o que o incomodava.
Ainda há pouco, Augusto repreendera com exacerbada veemência a Machado pela impropriedade do seu comentário que, agora, com gáudio, parecia celebrar.
Barreto ensimesmado com a observação se levantou e, sob o pretexto de ir ao banheiro, foi ordenar as idéias e avaliar, friamente, se valia à pena continuar ali na companhia de ambos.
Augusto era mais um conhecido do que amigo dele, travaram algumas conversas despretensiosas nos churrascos que rolavam depois das peladas que costumavam jogar num clube aos sábados a tarde e domingos pela manhã, ou enquanto aguardavam a vez de entrar em campo entre uma partida e outra. Augusto um aficionado pelo futebol, mas de poucas habilidades com a bola, se aproximara dele encantado com sua destreza e elegância no trato da bola e vivia enaltecendo a sua performance em campo. Sempre conversaram amenidades, jamais travaram um papo que desse para ele fazer uma avaliação do caráter de Augusto, mas o comportamento dele durante as partidas que disputava não era nada auspicioso.
No seu ponto de vista a análise do desempenho comportamental de um desportista no auge da disputa durante a prática esportiva, realizada, principalmente, com fins recreativos, é um ótimo avaliador do tipo de personalidade e do caráter do praticante. A vontade de ganhar, quando a derrota traz algum tipo de desvantagem, acirra, ainda mais, os ânimos, mexe com as emoções e aflora os instintos, daí revela personalidades e evidencia o caráter. Muito embora, hoje em dia, a personalidade seja algo banalizado por alguns cursos que criam tipos adequados para certas ocasiões e posições profissionais e até mesmo situações sociais. Profissionais amestrados, todos com um comportamento pessoal padronizado e robotizado para impressionar em várias situações, com objetivos voltados apenas para atingir as metas estabelecidas, mas que felizmente diante de pressões extremas revelam o seu verdadeiro caráter.
Tão logo Barreto se afastou, Augusto comentou com o amigo de longa data:
— Vamos pegar leve com o Barreto, ele é um sujeito legal, fino e educado. Joga muita bola, melhor do que muitos profissionais por aí, mas só joga na bola e futebol não é esporte para gentleman. Eu acho que ele não foi profissional por isso. Já batemos muito papo e ele nunca falou de mulheres, mas não me parece ser um cara enrustido, eu já o vi muitas vezes com olhar dissimulado, mas gordo em direção a elas. Quando ele voltar, vamos falar de outras coisas e ele sabe de muitas, além de conhecer fatos interessantes. Tem amigos em tudo que é lugar, pois era chamado para muitas peladas até por jogadores profissionais.
— E ele ainda joga? — perguntou Machado, que tinha o futebol como o segundo esporte de predileção.
— Infelizmente ele não joga mais, senão estaria lá no nosso time. Ele tem uns sete anos a mais do que a gente, mas sempre teve um bom preparo físico e jogaria fácil. Jogava por gosto e ia a qualquer lugar para bater uma bolinha. Dá uma maneirada aí no papo por que ele está de volta! — pediu Augusto a Machado diante da aproximação de Barreto.
Barreto se acomodou na cadeira, pediu outro chope pois o anterior havia esquentado com a sua demora em retornar ao martírio que aqueles dois prometiam.
— O Augusto me disse que você era um craque de primeira grandeza nas quatro linhas do campo, parou de jogar por que? — perguntou Machado, em tom amistoso, mas mostrando as travas da chuteira ao pronunciar com muita ênfase e certa mordacidade: nas quatro linhas do campo.
Barreto percebeu a perspicácia mas resolveu entrar no jogo, futebol era um tema que ele gostava de comentar sem reservas.
— Sofri uma ruptura no tendão do calcanhar esquerdo e receoso depois da recuperação, pois já estava meio cascudo, resolvi parar. Jogar com receio de contundir-se não é nada bom, nos torna mais vulnerável e empana o nosso brilho.
— Enquanto você estava no banheiro conversávamos sobre idade e futebol. Eu e o Augusto nos conhecemos prestando o serviço militar obrigatório e ele me disse que você tem uns sete anos de frente, na idade, em relação a nós. Você não aparenta ter cinqüenta e um anos de maneira nenhuma, aliás aparenta ter a idade de nós dois!
— Eu nunca me profissionalizei, mas nunca me descuidei e, até hoje, ainda me cuido fisicamente: nado, corro e faço musculação. Sempre me preocupei com a qualidade de vida.
Machado deu um risinho sarcástico, olhou para o amigo, num pedido mudo de desculpas, e emendou de primeira:
— Então você já levou dedada! — Barreto logo percebeu como seria a marcação de Machado e sentiu que não teria sossego.
Machado ficaria toda a conversa marcando serrado, fungando no seu cangote e entrando de sola em toda sobra de bola espirada ou dividida.
Rápido de raciocínio, o que sempre coroou as suas atuações em qualquer campo de atuação, Barreto optou de início em jogar com a bola colada ao pé e dar nele uns dribles desconcertantes e ele, envergonhado, iria procurar outra faixa do campo para jogar.
— O exame de próstata é um exame que todos nós, homens que se prezam, devemos realizar depois de uma certa idade, principalmente se temos preocupações sexuais. Alguns desinformados fogem do exame como o diabo da cruz com medo do homossexualismo. Coisa que não tem cabimento. — Augusto correu na cobertura do amigo e parou a jogada fazendo uma falta violenta.
— Mas tem cara que fica viciado em toque na próstata e, lá na hora do vamos ver, pede a mulher para enfiar o dedo. — e os dois se puseram a gargalhar com uma satisfação fora do comum.
Confraternizaram-se de maneira efusiva, celebrando o desarme de um adversário e não de um companheiro para compor e dividir o campo com eles. Transparecia que se divertiam trazendo aborrecimentos para o convidado da mesa.
Consternado, Barreto pensou em abandonar o jogo e sair de campo, a marcação dupla exigiria muito dele e ele estava ali para se divertir, desopilar o excesso de uma semana em que trabalhara exaustivamente e aborrecer-se era tudo o que não queria. Simularia um súbito mal estar, uma contusão que o impedisse de continuar e iria embora.
Augusto, num lance puramente casual, pois não é dado a estes feitos, fez um belo lance, quando vislumbrou de relance o ar de enfado estampado na fisionomia de Barreto, iniciando uma nova jogada. Demonstrando um reflexo adquirido em situações anteriores, chamou o garçom e pediu mais três chopes, escudando-se no pretexto da saideira. Com a chegada dos copos, entusiasticamente, propôs um brinde a saúde e a paz entre eles. Ergueu o seu copo, em saudação, sendo acompanhado pelos outros dois.
Machado, que nada percebera da mudança de jogo imposta por Augusto, acrescentou:
— E ao sussexo também! — deu uma risada obscena, desta vez não acompanhada por Augusto, que foi interrompida por uma golada que levou metade do conteúdo do copo.
Limpou com o dorso da mão o farto bigode e depois de cofiá-lo, demoradamente, incomodado com o silêncio que se abateu perguntou:
— Se você jogou toda esta bola que Augusto disse que jogou, por que não se profissionalizou?
— Eu cheguei a jogar no infanto-juvenil do Flamengo, fiz alguns jogos no juvenil, mesmo tendo menos idade, mas optei por estudar quando não deu para conciliar o futebol com o estudo. Queria fazer medicina e os estudos tomaram o tempo do futebol, mas acabei me formando em educação física e psicologia. — Machado, demonstrando, pela primeira vez, um interesse focado somente no assunto que estava em voga, sem buscar fatos para provocar a serenidade de Barreto, vibrou demonstrando sua idolatria.
— Então, você jogou com o Zico? — Os olhos de Barreto brilharam com uma centelha de saudosa alegria.
Ele fez uma rápida pausa, sorveu um gole e, com uma inflexão nostálgica na voz, complementou:
— Joguei só uma vez, mas joguei com: Adílio, Júlio Cezar, Júnior, Andrade, Tita e outros. — Machado a cada nome que Barreto citava arregalava os olhos com verdadeira admiração e, em uníssono com Augusto, repetia o ritual da torcida, quando é anunciada, pelo locutor, no estádio Mário Filho, a escalação de seu time.
— Augusto e eu somos rubro-negros doentes, os jogos do Mengão, aqui no Rio, nós não perdemos um, vamos a todos. Torcemos muito por esta turma, com certeza o melhor time do Flamengo de todas as épocas. Você bem que podia armar uma partida deles contra o nosso time, lá no campo do sítio do Augusto. A gente arma um churrasco com pagode e muitas mulheres e curte um domingo numa boa. O que você acha?
— Posso tentar, ainda mantenho contato com alguns deles e posso falar com outros jogadores. — Augusto, entusiasmado pela idéia do amigo, esfregando, feito uma criança cheia de alegria, as mãos uma na outra, se pronunciou:
— Basta me avisar com uma semana de antecedência que eu organizo tudo. Fica tudo por nossa conta, vai ser um festão. — Machado, alisando o seu bigode, resolveu voltar a falar do seu esporte predileto.
— No futebol fui sempre um beque esforçado e sem muito recurso técnico, mas sempre joguei duro e na bola. Mas na cama eu jogo na frente e não há goleador mais viril do que eu. Jogo desde os quatorze anos e tenho todos os registros aqui nesta súmula: nome, idade, data, hora, local e algumas ocorrências que mereceram registros. Vou chegar as duas mil transas com mulheres distintas. — disse ele exibindo um velho e surrado fichário com capa de couro.
Abriu uma página ao acaso e mostrou para Barreto, que curioso leu um trecho do seu conteúdo: “Telma, treze anos, 06/03/1995, vinte horas e trinta e sete minutos, Fortaleza. No meu primeiro dia em Fortaleza peguei-a num bar na beira-mar, na praia de Jericoacoara. Tipo indígena, vestia uma farda de normalista, é assim que eles chamam uniforme aqui. Nova, mas uma veterana na arte do sexo.” Na linha seguinte mais um registro: “Maria do Socorro, vinte e um anos, 07/03/1995, vinte e duas horas, Fortaleza. Meu segundo dia em Fortaleza; garçonete do bar do hotel, eu decidi ficar com ela os dois dias restantes da minha estada, uma mulata maravilhosa.” Barreto continuou passando as folhas, de maneira mecânica, sem ler os registros, até chegar à última anotação, cuja data era do dia anterior. “Eduarda, trinta e três anos, 28/02/2004, duas horas e dez minutos, Copacabana. Garota de programas.” Barreto pediu uma água gaseificada ao garçom, fechou o fichário e o entregou a Machado, que, durante o período de leitura dele, traçava com Augusto estratégias para o possível churrasco.
Machado, interrompendo o alinhavo da operação, perguntou ensimesmado:
— Já vai embora ou não que beber mais? — e Barreto, se esforçando para esconder o enfado, respondeu que havia esgotado a sua cota de bebida alcoólica, por hoje.
Machado, provocativo, num lance de puro efeito, mostrando, desta feita, uma certa sutileza no trato da bola, até então não revelada, retrucou com certa mordacidade na voz:
— Duas tulipas e já está esgotado? Que homem é você que se contenta com duas, comigo é no mínimo três em duas goladas e olhe lá! — Barreto, não disposto a continuar em campo, se fez de desentendido.
— Bem! Cada um deve ter a noção exata de até aonde pode ir, isto é de grande valia, principalmente quando decide exceder o seu limite. — Machado cofiou o grande bigode, arqueou a sobrancelha, elevou o olhar, com ares de pouco ou nenhum entendimento, e devolveu a bola com uma potência desnecessária:
— Não entendi! Dá pra explicar mais claramente?
— Se você conhece o seu limite sabe perfeitamente quando o ultrapassou e que já não está completamente senhor de si e nem da situação, então deve se redobrar nos cuidados para não cometer atos de que venha a se envergonhar ou prejudicar. O ânimo exaltado é suscetível a destemperar-se com extrema facilidade. Entendeu! — disse Barreto de forma, paciente, pausada e clara, como se fosse um conselheiro apontando a eminência de uma saturação.
Suas palavras, ditas com uma entonação modulada e em baixo tom, soaram como uma velada ameaça aos ouvidos de Machado.
Ameaçar jamais passou pela cabeça de Barreto, estava distante da sua intenção, mas foi desta maneira que Machado entendeu, porque era assim que ele queria entender, desde de que pedira a Barreto maiores explicações. Entretanto a frieza e a entonação utilizadas por Barreto, na resposta, inibiram o rompante que assanhava a sua reação. Machado perdeu o fio e ficou frio.
Augusto, que observava a tudo calado, percebeu, na sua ótica, que o jogo estava ficando ríspido demais. Achou que apesar da beleza da jogada, Barreto abusou da sua categoria dando um efeito desnecessário ao lance; poderia ter sido mais simples na sua execução. Porém resolveu não correr em socorro do amigo de longa data. Não que não tivesse vontade, mas pensou na perda da oportunidade da realização da pelada com os profissionais em seu sítio. A peleja seria o maior acontecimento na sua região e ele tinha interesses políticos. Resolveu acabar com o jogo dali, marcaria uma revanche no sítio ou noutro lugar se não fosse possível no sítio. Chamou o garçom, pediu a conta e pagou a despesa.
Barreto levantou-se rapidamente, entregou um cartão para Augusto, se despediu e partiu. Não queria dar, aos dois, chance de um outro convite.
Machado, assim que Barreto sumiu de vista, desceu a lenha:
— Esse cara tem um pavio muito curto! Não respondi a ameaça dele a altura em consideração a você. Quem ele pensa que é? — Augusto não fez nenhum comentário ao desabafo do amigo, limitou-se a sorrir.
Machado olhou para o semblante dele, amolou o fio e mandou o corte:
— Vamos beber umas lá no shopping das carnes mijadas!
— Com quantas mulheres diferentes você já trepou? — perguntou, sem cerimônia, Machado, com um sorriso de escárnio no canto da boca e um olhar petulante, ao companheiro de mesa de bar que acabara de conhecer, mas de quem nem guardara o nome.
Foram apresentados por Augusto, conhecido de ambos, um colega de peladas com quem Barreto, coincidentemente, encontrara nas imediações e fizera o convite para o chope, mas que antes de sentar-se com eles à mesa dera um pulo ao banheiro.
Estranha maneira de se iniciar uma conversa com quem acabara de conhecer, pensava Barreto surpreendido. E evitando encarar demoradamente a Machado, para não mandá-lo tomar num lugar que a julgar pela sua exagerada curiosidade sexual não agradaria, ele continuou absorto em seus pensamentos, numa muda e íntima conversa.
Logo comigo, que detesto a vulgaridade de certos comentários e sou reservado nos meus assuntos do trato feminino, acontece uma situação vexatória desta. Não que eu seja pudico ou recatado com as mulheres, mas sexo é um assunto que gosto de comentar e discutir com as parceiras para encontrar e extrair o melhor do prazer para os dois lados. E, além do mais, detesto comentar com quem ando ou já andei trepando, ou o que fiz ou deixei de fazer com quem quer que seja.
Machado, achando que o silêncio perscrutador de Barreto fosse devido a algum levantamento numérico das transas que tivera, aguardava a resposta se remexendo na cadeira impaciente. A sua ansiosa espera era motivada apenas para constatar o seu recorde e exibir oportunamente a sua eficácia diante de mais um que certamente sucumbiria diante de seus números. Achava-se imbatível.
Barreto, ainda ensimesmado com a pergunta, se lembrou de um comentário feito por Augusto, há muito tempo, sobre um amigo que se vangloriava de nunca ter encontrado alguém que tivesse estado com mais mulheres do que ele. Lamentou-se, intimamente, não se lembrar do número de vezes comentado, se é que o amigo falou em números, para fazer sombra a Machado e empanar o brilho daquela empáfia. Pois só podia ser ele a figura que Augusto esboçara naquele dia. E seria por demais interessante presenciar a reação dele ante a um número maior do que o seu e saborear, com um inusitado prazer, uma insossa vingança, condimentada com uma mentira apimentada, mesmo sabendo o mal que ela lhe faria.
Após este introspectivo e minucioso exame da circunstância em que se encontrava, ele resolveu ser enigmático na resposta:
— Seguramente com um número bem menor de mulheres do que você já transou e certamente com menos mulheres do que você imagina.
— Porra Machado! Eu não acredito que você teve a coragem de incomodá-lo com esta sua neura! Acabo de lhe apresentar um amigo e você o recebe com esta velha e escrota mania. Não dá pra ter paciência, sondar quem ou como ele é e ver se tem cabimento fazer esta descabida pergunta! — bronqueou Augusto, soltando os cachorros em cima de Machado, ao retornar do banheiro a tempo de ouvir a resposta de Barreto e avaliar qual fora o já tradicional e afiado questionamento de Machado.
Machado não retrucou, mas deu uma gargalhada um tanto suspeita. Pois seu tom era carregado de sons e trejeitos que se aproximavam da bestialidade. Pediu desculpas aos companheiros de mesa, ergueu a tulipa de chope, que o garçom acabara de servir, para um brinde e deu uma golada que levou metade do seu conteúdo.
— Eu não resisto à curiosidade de saber se alguém já transou com mais de mil, seiscentas e vinte e duas mulheres distintas! — exclamou ele babando, ao tentar limpar com a ponta da língua a espuma do chope que ficara grudada no enorme bigode, depois de esvaziar a tulipa com uma segunda golada.
Os olhos, inflados de um orgulho bestial e doentio, não piscavam e nem desgrudavam dos de Barreto, encarando-o para avaliar o efeito que a sua declaração causara.
Isto é inacreditável! Repetia Barreto, com ar de pasmaceira, o tempo todo, após se engasgar com o gole de chope que bebera. A voz de Barreto lembrava o som de uma agulha presa numa trilha arranhada de um disco de vinil, matraqueando o mesmo trecho como se não soubesse dizer outra coisa.
A estupefação de Barreto continuava a arrancar as tonitruantes e suspeitas gargalhadas de Machado e meneios de cabeça de Augusto que pareciam avalizar orgulhosamente a fidedignidade da afirmativa.
Barreto olhava para um e para outro se esforçando para compreender a reação e o comportamento daqueles dois perfeitos imbecis, que deveriam achá-lo um idiota. Era um número absurdo, porém possível, mas a encenação era o que o incomodava.
Ainda há pouco, Augusto repreendera com exacerbada veemência a Machado pela impropriedade do seu comentário que, agora, com gáudio, parecia celebrar.
Barreto ensimesmado com a observação se levantou e, sob o pretexto de ir ao banheiro, foi ordenar as idéias e avaliar, friamente, se valia à pena continuar ali na companhia de ambos.
Augusto era mais um conhecido do que amigo dele, travaram algumas conversas despretensiosas nos churrascos que rolavam depois das peladas que costumavam jogar num clube aos sábados a tarde e domingos pela manhã, ou enquanto aguardavam a vez de entrar em campo entre uma partida e outra. Augusto um aficionado pelo futebol, mas de poucas habilidades com a bola, se aproximara dele encantado com sua destreza e elegância no trato da bola e vivia enaltecendo a sua performance em campo. Sempre conversaram amenidades, jamais travaram um papo que desse para ele fazer uma avaliação do caráter de Augusto, mas o comportamento dele durante as partidas que disputava não era nada auspicioso.
No seu ponto de vista a análise do desempenho comportamental de um desportista no auge da disputa durante a prática esportiva, realizada, principalmente, com fins recreativos, é um ótimo avaliador do tipo de personalidade e do caráter do praticante. A vontade de ganhar, quando a derrota traz algum tipo de desvantagem, acirra, ainda mais, os ânimos, mexe com as emoções e aflora os instintos, daí revela personalidades e evidencia o caráter. Muito embora, hoje em dia, a personalidade seja algo banalizado por alguns cursos que criam tipos adequados para certas ocasiões e posições profissionais e até mesmo situações sociais. Profissionais amestrados, todos com um comportamento pessoal padronizado e robotizado para impressionar em várias situações, com objetivos voltados apenas para atingir as metas estabelecidas, mas que felizmente diante de pressões extremas revelam o seu verdadeiro caráter.
Tão logo Barreto se afastou, Augusto comentou com o amigo de longa data:
— Vamos pegar leve com o Barreto, ele é um sujeito legal, fino e educado. Joga muita bola, melhor do que muitos profissionais por aí, mas só joga na bola e futebol não é esporte para gentleman. Eu acho que ele não foi profissional por isso. Já batemos muito papo e ele nunca falou de mulheres, mas não me parece ser um cara enrustido, eu já o vi muitas vezes com olhar dissimulado, mas gordo em direção a elas. Quando ele voltar, vamos falar de outras coisas e ele sabe de muitas, além de conhecer fatos interessantes. Tem amigos em tudo que é lugar, pois era chamado para muitas peladas até por jogadores profissionais.
— E ele ainda joga? — perguntou Machado, que tinha o futebol como o segundo esporte de predileção.
— Infelizmente ele não joga mais, senão estaria lá no nosso time. Ele tem uns sete anos a mais do que a gente, mas sempre teve um bom preparo físico e jogaria fácil. Jogava por gosto e ia a qualquer lugar para bater uma bolinha. Dá uma maneirada aí no papo por que ele está de volta! — pediu Augusto a Machado diante da aproximação de Barreto.
Barreto se acomodou na cadeira, pediu outro chope pois o anterior havia esquentado com a sua demora em retornar ao martírio que aqueles dois prometiam.
— O Augusto me disse que você era um craque de primeira grandeza nas quatro linhas do campo, parou de jogar por que? — perguntou Machado, em tom amistoso, mas mostrando as travas da chuteira ao pronunciar com muita ênfase e certa mordacidade: nas quatro linhas do campo.
Barreto percebeu a perspicácia mas resolveu entrar no jogo, futebol era um tema que ele gostava de comentar sem reservas.
— Sofri uma ruptura no tendão do calcanhar esquerdo e receoso depois da recuperação, pois já estava meio cascudo, resolvi parar. Jogar com receio de contundir-se não é nada bom, nos torna mais vulnerável e empana o nosso brilho.
— Enquanto você estava no banheiro conversávamos sobre idade e futebol. Eu e o Augusto nos conhecemos prestando o serviço militar obrigatório e ele me disse que você tem uns sete anos de frente, na idade, em relação a nós. Você não aparenta ter cinqüenta e um anos de maneira nenhuma, aliás aparenta ter a idade de nós dois!
— Eu nunca me profissionalizei, mas nunca me descuidei e, até hoje, ainda me cuido fisicamente: nado, corro e faço musculação. Sempre me preocupei com a qualidade de vida.
Machado deu um risinho sarcástico, olhou para o amigo, num pedido mudo de desculpas, e emendou de primeira:
— Então você já levou dedada! — Barreto logo percebeu como seria a marcação de Machado e sentiu que não teria sossego.
Machado ficaria toda a conversa marcando serrado, fungando no seu cangote e entrando de sola em toda sobra de bola espirada ou dividida.
Rápido de raciocínio, o que sempre coroou as suas atuações em qualquer campo de atuação, Barreto optou de início em jogar com a bola colada ao pé e dar nele uns dribles desconcertantes e ele, envergonhado, iria procurar outra faixa do campo para jogar.
— O exame de próstata é um exame que todos nós, homens que se prezam, devemos realizar depois de uma certa idade, principalmente se temos preocupações sexuais. Alguns desinformados fogem do exame como o diabo da cruz com medo do homossexualismo. Coisa que não tem cabimento. — Augusto correu na cobertura do amigo e parou a jogada fazendo uma falta violenta.
— Mas tem cara que fica viciado em toque na próstata e, lá na hora do vamos ver, pede a mulher para enfiar o dedo. — e os dois se puseram a gargalhar com uma satisfação fora do comum.
Confraternizaram-se de maneira efusiva, celebrando o desarme de um adversário e não de um companheiro para compor e dividir o campo com eles. Transparecia que se divertiam trazendo aborrecimentos para o convidado da mesa.
Consternado, Barreto pensou em abandonar o jogo e sair de campo, a marcação dupla exigiria muito dele e ele estava ali para se divertir, desopilar o excesso de uma semana em que trabalhara exaustivamente e aborrecer-se era tudo o que não queria. Simularia um súbito mal estar, uma contusão que o impedisse de continuar e iria embora.
Augusto, num lance puramente casual, pois não é dado a estes feitos, fez um belo lance, quando vislumbrou de relance o ar de enfado estampado na fisionomia de Barreto, iniciando uma nova jogada. Demonstrando um reflexo adquirido em situações anteriores, chamou o garçom e pediu mais três chopes, escudando-se no pretexto da saideira. Com a chegada dos copos, entusiasticamente, propôs um brinde a saúde e a paz entre eles. Ergueu o seu copo, em saudação, sendo acompanhado pelos outros dois.
Machado, que nada percebera da mudança de jogo imposta por Augusto, acrescentou:
— E ao sussexo também! — deu uma risada obscena, desta vez não acompanhada por Augusto, que foi interrompida por uma golada que levou metade do conteúdo do copo.
Limpou com o dorso da mão o farto bigode e depois de cofiá-lo, demoradamente, incomodado com o silêncio que se abateu perguntou:
— Se você jogou toda esta bola que Augusto disse que jogou, por que não se profissionalizou?
— Eu cheguei a jogar no infanto-juvenil do Flamengo, fiz alguns jogos no juvenil, mesmo tendo menos idade, mas optei por estudar quando não deu para conciliar o futebol com o estudo. Queria fazer medicina e os estudos tomaram o tempo do futebol, mas acabei me formando em educação física e psicologia. — Machado, demonstrando, pela primeira vez, um interesse focado somente no assunto que estava em voga, sem buscar fatos para provocar a serenidade de Barreto, vibrou demonstrando sua idolatria.
— Então, você jogou com o Zico? — Os olhos de Barreto brilharam com uma centelha de saudosa alegria.
Ele fez uma rápida pausa, sorveu um gole e, com uma inflexão nostálgica na voz, complementou:
— Joguei só uma vez, mas joguei com: Adílio, Júlio Cezar, Júnior, Andrade, Tita e outros. — Machado a cada nome que Barreto citava arregalava os olhos com verdadeira admiração e, em uníssono com Augusto, repetia o ritual da torcida, quando é anunciada, pelo locutor, no estádio Mário Filho, a escalação de seu time.
— Augusto e eu somos rubro-negros doentes, os jogos do Mengão, aqui no Rio, nós não perdemos um, vamos a todos. Torcemos muito por esta turma, com certeza o melhor time do Flamengo de todas as épocas. Você bem que podia armar uma partida deles contra o nosso time, lá no campo do sítio do Augusto. A gente arma um churrasco com pagode e muitas mulheres e curte um domingo numa boa. O que você acha?
— Posso tentar, ainda mantenho contato com alguns deles e posso falar com outros jogadores. — Augusto, entusiasmado pela idéia do amigo, esfregando, feito uma criança cheia de alegria, as mãos uma na outra, se pronunciou:
— Basta me avisar com uma semana de antecedência que eu organizo tudo. Fica tudo por nossa conta, vai ser um festão. — Machado, alisando o seu bigode, resolveu voltar a falar do seu esporte predileto.
— No futebol fui sempre um beque esforçado e sem muito recurso técnico, mas sempre joguei duro e na bola. Mas na cama eu jogo na frente e não há goleador mais viril do que eu. Jogo desde os quatorze anos e tenho todos os registros aqui nesta súmula: nome, idade, data, hora, local e algumas ocorrências que mereceram registros. Vou chegar as duas mil transas com mulheres distintas. — disse ele exibindo um velho e surrado fichário com capa de couro.
Abriu uma página ao acaso e mostrou para Barreto, que curioso leu um trecho do seu conteúdo: “Telma, treze anos, 06/03/1995, vinte horas e trinta e sete minutos, Fortaleza. No meu primeiro dia em Fortaleza peguei-a num bar na beira-mar, na praia de Jericoacoara. Tipo indígena, vestia uma farda de normalista, é assim que eles chamam uniforme aqui. Nova, mas uma veterana na arte do sexo.” Na linha seguinte mais um registro: “Maria do Socorro, vinte e um anos, 07/03/1995, vinte e duas horas, Fortaleza. Meu segundo dia em Fortaleza; garçonete do bar do hotel, eu decidi ficar com ela os dois dias restantes da minha estada, uma mulata maravilhosa.” Barreto continuou passando as folhas, de maneira mecânica, sem ler os registros, até chegar à última anotação, cuja data era do dia anterior. “Eduarda, trinta e três anos, 28/02/2004, duas horas e dez minutos, Copacabana. Garota de programas.” Barreto pediu uma água gaseificada ao garçom, fechou o fichário e o entregou a Machado, que, durante o período de leitura dele, traçava com Augusto estratégias para o possível churrasco.
Machado, interrompendo o alinhavo da operação, perguntou ensimesmado:
— Já vai embora ou não que beber mais? — e Barreto, se esforçando para esconder o enfado, respondeu que havia esgotado a sua cota de bebida alcoólica, por hoje.
Machado, provocativo, num lance de puro efeito, mostrando, desta feita, uma certa sutileza no trato da bola, até então não revelada, retrucou com certa mordacidade na voz:
— Duas tulipas e já está esgotado? Que homem é você que se contenta com duas, comigo é no mínimo três em duas goladas e olhe lá! — Barreto, não disposto a continuar em campo, se fez de desentendido.
— Bem! Cada um deve ter a noção exata de até aonde pode ir, isto é de grande valia, principalmente quando decide exceder o seu limite. — Machado cofiou o grande bigode, arqueou a sobrancelha, elevou o olhar, com ares de pouco ou nenhum entendimento, e devolveu a bola com uma potência desnecessária:
— Não entendi! Dá pra explicar mais claramente?
— Se você conhece o seu limite sabe perfeitamente quando o ultrapassou e que já não está completamente senhor de si e nem da situação, então deve se redobrar nos cuidados para não cometer atos de que venha a se envergonhar ou prejudicar. O ânimo exaltado é suscetível a destemperar-se com extrema facilidade. Entendeu! — disse Barreto de forma, paciente, pausada e clara, como se fosse um conselheiro apontando a eminência de uma saturação.
Suas palavras, ditas com uma entonação modulada e em baixo tom, soaram como uma velada ameaça aos ouvidos de Machado.
Ameaçar jamais passou pela cabeça de Barreto, estava distante da sua intenção, mas foi desta maneira que Machado entendeu, porque era assim que ele queria entender, desde de que pedira a Barreto maiores explicações. Entretanto a frieza e a entonação utilizadas por Barreto, na resposta, inibiram o rompante que assanhava a sua reação. Machado perdeu o fio e ficou frio.
Augusto, que observava a tudo calado, percebeu, na sua ótica, que o jogo estava ficando ríspido demais. Achou que apesar da beleza da jogada, Barreto abusou da sua categoria dando um efeito desnecessário ao lance; poderia ter sido mais simples na sua execução. Porém resolveu não correr em socorro do amigo de longa data. Não que não tivesse vontade, mas pensou na perda da oportunidade da realização da pelada com os profissionais em seu sítio. A peleja seria o maior acontecimento na sua região e ele tinha interesses políticos. Resolveu acabar com o jogo dali, marcaria uma revanche no sítio ou noutro lugar se não fosse possível no sítio. Chamou o garçom, pediu a conta e pagou a despesa.
Barreto levantou-se rapidamente, entregou um cartão para Augusto, se despediu e partiu. Não queria dar, aos dois, chance de um outro convite.
Machado, assim que Barreto sumiu de vista, desceu a lenha:
— Esse cara tem um pavio muito curto! Não respondi a ameaça dele a altura em consideração a você. Quem ele pensa que é? — Augusto não fez nenhum comentário ao desabafo do amigo, limitou-se a sorrir.
Machado olhou para o semblante dele, amolou o fio e mandou o corte:
— Vamos beber umas lá no shopping das carnes mijadas!

Um comentário:
Gostei professor , mas confessa que ocorreu algo parecido ao seu redor...
FORTE ABRAÇO.
Diego Vinicius
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