segunda-feira, 2 de março de 2009

O Conto do Bimestre - mar/abr

A reunião


A noite se aproximava da madrugada, mas, ainda, distava algumas horas do ponto em que uma se transformaria na outra. A presença da lua nova acompanhada de nuvens nada hospitaleiras acentuava os mistérios ocultos nas sombras da noite.
Em cada reentrância do acidentado caminho o negrume da noite parecia esconder uma surpresa desagradável para a comitiva que trafegava, vagarosamente, orientada apenas pelas luzes das lanternas dos automóveis para não chamar a atenção da exígua vizinhança. O destino da caravana era uma choupana completamente cercada de árvores numa extensa e erma planície. Em cada veículo um participante do encontro, com o respectivo motorista e nada mais, este foi o trato acertado com antecedência e certificado, pelos participantes da reunião, na saída do grupo.
O lugar, que após muita discussão foi apontado como o menos pior para realização da reunião, não era condizente com a ostentação que os participantes estavam acostumados, porém era adequado para manter o sigilo do reservado encontro. Um protocolo de exigências previamente elaborado, com o de acordo de cada participante, e cumprido à risca por todos, possibilitou a chegada até o ponto estabelecido, sem nenhum transtorno.
Já dentro da sala todos se acomodaram da melhor forma possível, um exercício que exacerbou, mais ainda, o enfado estampado nas quase indecifráveis fisionomias, que só se revelavam no momento de demonstrar insatisfação com a situação. Ninguém se preocupou em esboçar um mínimo gesto de cordialidade, mesmo cientes de que estavam ali para tratar de interesses que poderiam aumentar tremendamente os seus poderes.
A reunião começou e a atmosfera reinando no recinto seguiu carregada e sujeita a pancadas ao menor sinal de contrariedade explicitada por alguém. Ninguém arrefeceu a expressão, muito pelo contrário, os olhares, agora, trocavam furtivas chispas de rancor, mas os semblantes não se encaravam com a mesma intensidade como se vigiavam de soslaio. Se, por descuido do emissor, pelo menos um dos olhares lançados de rabo de olho fosse percebido, inadvertidamente, cara a cara, estaria aceso o estopim para uma grande explosão de ânimos, tamanha a carga de animosidade contida em cada olhada de esguelha. Notava-se, não se sabe se provocado pelas formas nada anatômicas do improvisado mobiliário ou do ar, abafado e quase irrespirável do local que se encontrava com as duas janelas fechadas, um grande desconforto físico em meio às falações. Era grande a impaciência revelada na movimentação excessiva dos corpos em seus encostos. O clima de desconfiança mútua crescia.
Os comportamentos, até então, ainda bem comportados, se não levados em consideração os modos grosseiros dos presentes, começavam a revelar uma certa intolerância com o cômodo e a incômoda reunião. Era nítida a ausência de qualquer aproximação entre as partes, porém a hostilidade, escondida por trás de indisfarçáveis disfarces, já era perceptível, porém, propositadamente, não notada.
Uma tênue, mas constante brisa de medo pairava em suspensão no ar. Entretanto, impassíveis, as expressões faciais dos indivíduos ali presentes não revelavam o que sentiam interiormente. Cada qual se protegia a sua maneira, para não deixar transparecer a intensidade do desconforto que sentia e que o fustigava, pois intimamente sabia que o menor sinal de intimidação que deixasse transparecer agora, traria grandes transtornos depois, no momento de uma possível barganha.
O medo para eles era somente uma palavra, da qual não ignoravam o verdadeiro significado, mas desprezavam o que traduzia. Eram tidos e havidos como destemidos e se impunham através do medo que provocavam naqueles que tinham medo e tinham medo de enfrentá-los e, portanto, jamais poderiam vencê-los. Nem ao medo nem a eles. Não que eles não sentissem medo, pois todos sentimos, mas o que os diferenciavam era um estranho e confuso sentimento em relação ao medo; tinham medo de sentir medo e o medo de sentir medo os afastavam da sensação de medo.
Os sorrisos zombeteiros e as expressões maliciosas aparentados eram a verdadeira face da dissimulada mentira ali representada. Tudo o que se falava e combinava não condizia em nada com o que deveria ser efetivado de fato na prática de quem dizia. As palavras proferidas seguiam um itinerário bem distante do caminho ao qual realmente se queria chegar, evitando-se, assim, que a sua verdadeira intenção fosse revelada. Ninguém queria mostrar o verdadeiro mapa da mina.
O clima na sala havia mudado drasticamente, de ruim para pior, quando se estabeleceu um completo desacordo entre as partes envolvidas na questão em discussão. A proposta de conciliação não se afinava com nenhuma proposta individual das partes envolvidas, muito pelo contrário, apontava para direções diametralmente opostas de cada uma, sem a menor chance de um acordo. Ninguém queria dar o braço a torcer e abrir mão da sua prerrogativa em prol de um consenso que traria vantagens para todos. Cada um alimentava a esperança de subjugar os outros e ficar com todo quinhão. A brilhante idéia de transformar tudo num único bolo e formar um caixa único, administrado com transparência, e dividir a receita entre eles, independente do tamanho da área de abrangência de cada um, pura e simplesmente não atingiu os anseios de ninguém. É que cada um, secretamente, ansiava em tomar a parte do outro, se fortalecer, tomar as outras partes restantes e ficar com tudo.
Felizmente, para todos que poderiam direta ou indiretamente sofrer na pele e no bolso os efeitos da centralização das atividades deles, a desunião perdurava. A fusão dos quatro poderes, ali representados pelos seus dirigentes maiores, significaria o estabelecimento de uma nova ordem e a falência de um conjunto importante no sistema. Apesar das constatadas e provadas evidências, eles continuavam a ignorar que as operações para se protegerem, sobre todos os aspectos, uns dos outros, os consumiam muito mais do que enfrentar os adversários em comum e os enfraquecia diante deles. Os adversários, através de alguns de seus representantes, continuariam a se locupletar com as vantagens que usurpavam de cada um deles vendendo facilidades.
Enfim algo próximo do que chamamos cordialidade surgiu.
Diante da perspectiva da despedida, quando cada um percebeu que poderia ficar livre da presença indesejável dos outros, efusivos cumprimentos de despedidas ecoaram. Um indecifrável sorriso em cada rosto, durante os aperto de mãos, escondiam votos que ninguém ousava confessar de viva voz. Eram promessas de um até breve usurpador.