O ensaio geral
Sexta-feira, oito dias antecedem o carnaval, e é dia de ensaio geral da Escola de Samba.
— A nossa Escola subiu para o grupo especial e nunca mais vai descer. Isto eu garanto, enquanto vivo estiver! E se bobearem a gente abiscoita o título! — dizia ele, mais uma vez, batendo fortemente com a mão fechada no peito, na altura do coração, e excessivo rubor na face, coreografia que repetia desde o dia da apuração, com esfuziante euforia, quando sua Escola foi declarada campeã do grupo de acesso.
Todos os responsáveis por alas, diretores da Escola e principalmente ele, diretor geral, figura só menos importante que o presidente da Escola, se ocupavam com os preparativos finais para o ensaio geral que se realizaria, mais tarde, naquela noite.
— No desfile do grande dia, depois deste período de quase um ano de mobilização para efêmeros, mas inesquecíveis e alucinantes minutos de êxtases, tudo deverá acontecer conforme o aqui planejado e nos ensaio aprimorados. Nada poderá fugir do roteiro e ninguém terá direito a improviso, a menos que ocorra algum fato novo. E até logo mais! Se Deus assim permitir. — deu ele por terminada a reunião, sorrindo, com ar de grande orador e motivador, após esgotar exaustivamente os apartes concedidos.
Todos saíram e apressado ele se dirigiu para a sala que ocupa na Escola, pois precisava de privacidade para acertar os últimos detalhes para um dia há muito ansiado.
Finalmente, logo após o ensaio geral, seria a vez dele colocar o bloco na rua. Foi um período angustiante e de muita transpiração, mas afinal conseguira dobrar a cabrocha mais cobiçada da Escola. O tempo para concretizar a conquista foi longo, mas o dia escolhido, por ela, para a realização do enredo era apertadíssimo. O desfile de seu bloco tinha que ser brilhante e eficiente, só assim ele conquistaria de vez o seu estandarte de ouro. O coração da cabrocha.
Esperar o término do ensaio geral não seria empecilho para ele se não tivesse um compromisso às sete horas da manhã do dia seguinte. Uma viagem de mais de duas horas de carro, cujos quilômetros finais eram numa estrada em aclive e cheia de curvas. Os velhos sogros já se encontravam hospedados em sua casa, vindos de outro Estado, aguardando para serem levados, por ele, ao batizado de mais um neto, razão da esposa não acompanhá-lo ao ensaio geral. Menos uma questão para contornar e uma desculpa mentirosa a economizar no seu criativo, mas já quase escasso plantel.
O local estava garantido: um quarto quase privativo. Uma cortesia num dos motéis mais requintados da cidade, abatedouro que o dono reservava para alguns amigos reservados. Já fizera algumas incursões no recinto, adorava a sua funcionalidade. Ele não era um carnívoro inveterado, mas adorava experimentar carnes nobres e não economizava desculpas para satisfazer o seu desejo voluptuoso. Razão da sua falência de motivos para preservar sua ilibada conduta junto à patroa.
O pouco tempo que teria para saborear aquele amontoado de carnes, sem nenhuma gordura, sustentada por rígidos músculos e distribuída em perfeita simetria com as partes era o que o incomodava. Não passou, em momento algum, pela cabeça dele adiar o encontro para um dia mais propício. Há situações em que não devemos nos preocupar em unir o útil ao desejável, se convencer que não haverá amanhã é um apelo de melhor eficácia.
Partiu para o conforto do lar com tudo articulado. No trajeto compraria duas garrafas de vinho branco, o predileto de sua patroa, para sorverem durante o jantar em família e diminuir um pouco a ansiedade dela pelo seu retorno após o ensaio.
No jantar foi bastante solícito com os sogros e representou o constrangimento que causaria a ele a ausência dela, sua esposa, no ensaio geral, porém abrilhantou, com exagerada ênfase, a descrição da participação dela no dia do desfile. Mais para salvaguardar o seu dia seguinte do que massagear o ego dela. Para ela não seria sacrifício algum ficar em casa com os pais, muito pelo contrário. Antes de sair ele tomou uma taça de vinho branco com duas colheres de guaraná em pó para garantir o pique. Enquanto bebia o estimulante foi assomado por um sentimento que o fez sentir-se, momentaneamente, um canalha, mas não se deixou abater. Afinal os meios justificam o fim.
Ele chegou à quadra da Escola radiante; algumas alas já estavam posicionadas, as outras aguardavam o ensaio iniciar para tomarem seus lugares logo que o espaço se abrisse com a evolução das alas em formação. A bateria dava um show à parte, enquanto se aquecia a espera do grito de guerra do puxador oficial. Ele, um tanto mais agitado do que o normal, agradeceu a seus colaboradores diretos a presteza no compromisso e deu a ordem: daqui a cinco minutos nós começamos. A agitação dele só atingiu o estado normal quando o olhar pousou na cabrocha. Ela estava mais linda do que nunca e ele, sem ação, admirava aquele pedaço de mau caminho sem saber a quem agradecer aquela dádiva ou maldição. Saiu do seu estado contemplativo, alertado pelo grito do puxador oficial, e se encaminhou na direção dela, a rainha da bateria, e a saudou respeitosamente. Recebeu de volta uma piscadela de olho tão sedutora que quase entregou o ouro guardado a sete chaves. Mas uma vez mais foi salvo pelo puxador, desta vez dando início ao samba enredo.
A quadra de ensaio tremeu, como se houvesse ocorrido um pequeno abalo sísmico, quando o samba ecoou ao som da bateria e o uníssono das vozes presentes. As alas começaram a evoluir de acordo com suas coreografias, a energia emanada pelo coletivo se acumulava e retornava revigorando a cada um com maior potência. O fluxo deste ritual se repetia ciclicamente renovando a carga de energia, que se tornava mais potente a cada redistribuição. Então, todos, indistintamente, eram atingidos de certa maneira e em êxtase, sintomaticamente, esqueciam completamente das mazelas físicas e sociais e se inebriavam com doses cavalares de felicidade. Neste clima de euforia transcorreu o ensaio, trazendo perspectivas alvissareiras em relação ao grande dia.
— Meus irmãos! Muito obrigado! O ensaio foi brilhante! Percebi que todos se empenharam com afinco dando o máximo de si demonstrando onde é o nosso lugar. O sucesso é resultante de muito trabalho e empenho. Depois do que eu observei aqui hoje, não é somente a garantia da nossa permanência no grupo especial que está determinada, nós com certeza vamos estar no desfile das campeãs, a incerteza é só quanto à ordem que nos vai ser destinada neste desfile. Falarei, pessoalmente, ao presidente da nossa Agremiação, com muito orgulho, da dedicação de todos em prol da superação dos nossos objetivos. — encerrou ele, ovacionado pelos presentes, falando em nome do presidente da Escola, que se encontrava internado em convalescença no hospital, após ser submetido a uma melindrosa cirurgia cardíaca.
Quase duas horas da manhã, preocupado com o tempo que anda no fluxo contrário de nossa ansiedade, ele fazia um esforço tremendo para não demonstrar a pressa em se retirar, embora todos soubessem do seu compromisso com a família.
Em meio aos cumprimentos ela surgiu com uma grande bolsa a tiracolo e uma sandália com o salto quebrado, na mão e pedindo discretamente uma carona a ele. Fato que não chamou a atenção de ninguém, pois algumas vezes ela retornou com ele e a mulher, o itinerário era quase o mesmo. Deu a ela a chave e pediu que ela aguardasse no carro.
Dez minutos depois ele chegou no estacionamento e os dois partiram rumo ao ninho de amor. Só depois, bem distante da quadra da Escola, ele deu uma estacionada e a beijou sofregamente, deslizando com uma espantosa habilidade suas mãos por todos os adereços dela. Estava alucinado pelo desejo fomentado no longo tempo de espera. Tamanha era a sanha dele que quase consumaram o ato ali mesmo no carro. Um carro que se aproximava devagar e diminuiu mais ainda a velocidade quando passou ao lado do carro dele, alertou-o do risco que estava correndo. Esperou que o veículo se distanciasse e partiu com ela mantendo-o acelerado, rumo ao motel. Pouco mais de duas horas de puro prazer. A cabrocha superou todas as expectativas dele, tinha um furor insaciável e uma experiência inenarrável.
Saíram da madrugada de volúpias felizes e satisfeitos. Ela, completamente relaxada, vinha com a cabeça apoiada no ombro dele no caminho de volta e quando cruzaram com um outro veículo ela se assustou e se colocou rapidamente na postura de carona. Ele percebeu a intenção do gesto, mas nada comentou. Ela era muito esperta.
— Amor você foi maravilhoso! Que pegada! — disse ela com ar de seriedade.
Ele sorriu contrafeito e ela percebeu.
— Por que este riso?
— Meu amor, eu vou lhe segredar algo: eu só agüentei o tranco porque me encontrava estimulado por um coquetel de viagra com redbull, de outra forma não seguraria a marimba. — foi a vez dela sorrir.
Um riso que foi aumentando gradativamente até atingir a frequência de uma sonora e expansiva gargalhada. Ele parou o carro.
— Chegamos! — ela olhou ao redor e sapecou-lhe um beijo ardente e se despediu.
— Arranje um dia inteiro só pra nós dois e façamos a contraprova. Vá na paz do Senhor! E tenha um bom dia! — e ele seguiu radiante.
Chegou na porta de casa, consultou o relógio, cinco e quinze da madrugada, abriu à porta de casa, com a desculpa na ponta da língua, e se deparou com um absoluto silêncio. Prosseguiu na ponta dos pés, preocupado em não interromper o silêncio, foi até a cozinha colocou água para ferver e foi tomar um rápido banho. Saiu do banheiro, fez o café, arrumou a mesa e só, então, foi até o quarto. A esposa dormia o sono dos inocentes, acordou-a com um beijo e um bom dia calorosos.
— Está na hora amor! Acorde seus pais, senão nos atrasaremos! — ela, ainda, um pouco entorpecida pelo sono, perguntou:
— Que horas são?
— Faltam cinco minutos para as seis horas. — respondeu ele estendendo a mão para ajudá-la a levantar.
Ela deu um salto na cama assustada.
— Dormi demais, acho que foi o vinho! Ponha a água para ferver enquanto eu acordo o papai e a mamãe?
— Não se preocupe amor, a mesa já esta posta! — disse ele solicito.
— Você é mesmo um amor! — disse ela dando-lhe um beijo e saindo em direção ao quarto onde os pais dormiam.
Durante o café, todos, sonolentos, com a exceção dele, ouviam atenciosamente seus comentários sobre o desenrolar do maravilhoso ensaio. Sua narrativa era bastante surrealista, carregada nas cores e nos detalhes difíceis de se construir mentalmente. Assim evitava perguntas incômodas.
Uma hora e meia de viagem, a mulher ao seu lado ressonava, a sogra sentada atrás dele e o sogro ao lado dela roncavam e ele começava a lutar contra o sono. A sensação de cansaço era tão grande que ele estava pensando em dar uma parada para descansar, assim que terminasse o trecho em descida. Depois de algumas curvas uma sandália colorida veio parar perto dos pedais. O coração dele disparou e quase escapuliu boca a fora: A cabrocha esqueceu a sandália no carro! Foi o seu único pensamento. Olhou pro lado, olhou pra trás e todos dormindo. Abaixou o vidro do seu lado e varejou um pé da sandália no caminho. Diminuiu a velocidade e tateou em baixo do banco em busca do outro pé, sem tirar os olhos da estrada. A sogra se remexeu e suspirou, o sangue dele gelou nas veias. Foram segundos que demoraram uma eternidade, até ela quedar-se no ombro do marido. Ele reiniciou a busca e finalmente encontrou o que procurava, atirando pela janela sem parcimônia. Levantou o vidro da porta, examinou, novamente o interior do automóvel e respirou aliviado. O incidente teve pelo menos um saldo positivo: o pronto restabelecimento dele. Toda aquela adrenalina deixou-o esperto novamente.
A viagem de automóvel chegou ao seu final tranqüila.
O problema surgiu durante o desembarque, quando a sogra começou a procurar e a perguntar pelo paradeiro da sandália dela.
— Minha filha você reparou se sai calçada? Eu tenho andado tão esquecida ultimamente que nem tenho certeza se calcei a sandália. É por esta e outras que ontem lhe falei que preciso fazer um exame para verificar se estou com o mal de Alzaimer.
— Mamãe, tente refazer os seus últimos passos lá em casa antes de sair. Se a senhora estivesse com o mal de Alzaimer teria esquecido da nossa conversa de ontem a noite. — o genro, que a tudo assistia impassível com olhar de comiseração, resolveu encerrar o suspense antes que as suspeitas fossem esmiuçadas e o caso ganhasse amplitude.
— O problema é elementar minha querida sogra! Entre aí no carro e vamos até a sapataria, ali na esquina, escolher a mais bela sandália da loja para a senhora.
— Meu genro querido você é mesmo um amor!
quarta-feira, 8 de julho de 2009
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